Metanol no combustível pode corroer peças e causar falhas no motor; veja os riscos

Combustíveis de postos controlados pelo PCC tinham até 90% de metanol

Combustíveis de postos controlados pelo PCC tinham até 90% de metanol

Parte do esquema promovia adulteração de combustíveis com metanol, substância altamente inflamável, tóxica e de difícil identificação. Especialistas ouvidos pelo g1 alertam para os riscos graves que o metanol representa aos veículos.

“O principal problema é a corrosão das peças que entram em contato direto com o produto”, explica Tenório Júnior, técnico e professor de mecânica automotiva.

“Antes mesmo de estragar as partes do motor, o metanol acaba queimando a bomba de combustível. Se a pessoa rodar com esse produto, que é corrosivo, tem carro que não aguenta andar nem durante um tanque”, explica Bruno Bandeira, mecânico e proprietário da Oficina Mecânica Na Garagem.

Os mecânicos destacam que certos veículos conseguem tolerar a presença de metanol no tanque, embora ele possa corroer diretamente os seguintes componentes:

  • Bicos injetores;
  • Flauta de combustível;
  • Câmara de combustão;
  • Guia de válvulas;
  • Bomba de baixa pressão;
  • Bomba de alta pressão.

Com o tempo, o motor que sofre com a contaminação do combustível pode até não ligar. “Tem carro que, pela manhã, nem liga. Pelo combustível, ele trava onde fica a haste de válvula do cabeçote. O metanol cria uma goma”, revela Bandeira.

O mecânico acrescenta que a bomba de alta pressão sofre compressão acima do esperado, o que faz com que seus componentes internos girem com intensidade, desgastando-se a ponto de desaparecerem.

Ele alerta ainda que a adulteração tem se tornado cada vez mais frequente, sendo mais comum com metanol do que com etanol misturado à gasolina.

“Antes eu utilizava gasolina para limpar algumas peças e agora não está limpando mais. É tanta porcaria que estão colocando [no combustível], que aquilo nem dissolve mais o óleo”, aponta.

Como identificar combustível adulterado

Motor da Ford Maverick Tremor 2026 — Foto: Fabio Tito/g1

Motor da Ford Maverick Tremor 2026 — Foto: Fabio Tito/g1

Segundo Orli Robalo, mecânico em Porto Alegre (RS), um dos sinais comuns de resposta do carro mal abastecido é o acendimento de luzes no painel. “O combustível alterado faz com que sature a leitura dos sensores e faz ligar essa luz”, aponta o especialista.

Denis Marum, mecânico com formação em engenharia mecânica, afirma que a perda de potência é um sinal claro de combustível adulterado.

“Assim que você abastece, o pedal do acelerador fica ‘borrachudo’. Você sente que precisa acelerar mais para obter a mesma velocidade”, diz.

Marum aponta outros indícios, como:

  • Consumo elevado: “geralmente, o consumo médio despenca 30%. É fácil de perceber para quem faz o mesmo percurso diariamente: o tanque dura menos”, diz o especialista;
  • Dificuldade para pegar pela manhã;
  • Ruído do motor semelhante ao de uma corrente de bicicleta trocando de marcha. “Esse ruído ocorre nas saídas e, principalmente, em subidas, momentos em que o motor é mais exigido”, aponta;
  • Odores estranhos saindo do escapamento;
  • Cheiro de solvente ou querosene.

Luz de alerta para problemas no combustivel — Foto: reprodução/TV Globo

Luz de alerta para problemas no combustivel — Foto: reprodução/TV Globo

José Luiz de Souza, especialista da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), explica que é possível identificar combustível adulterado antes mesmo de abastecer. Para isso, basta coletar 50 ml de gasolina e misturar com a mesma quantidade de água e sal.

Depois de misturado, o etanol que estava na gasolina se junta à água e, após um repouso de 10 minutos, os líquidos se separam, com a gasolina ficando na parte superior da proveta.

Como a gasolina brasileira pode conter até 30% de álcool, a separação entre os líquidos deve ocorrer na marca de 65 ml. Em alguns postos, a legislação mais recente permite até 30% de etanol.

“Se tiver abaixo disso a gasolina não está em conformidade. Se estiver a cima, tem mais álcool que o permitido”, disse José Luiz de Souza, especialista da ANP.

Tenório revela que o metanol age diferente e pode ser camuflado com mais facilidade. “Ele tem alta capacidade de combustão e água não. Além disso, nos testes a água separa totalmente do combustível, metanol não”, diz o mecânico.

Eustáquio de Castro, coordenador do Laboratório de Pesquisa e Análise de Petróleo da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), explica que é possível aplicar um teste de densidade no próprio posto de combustíveis.

A resolução nº 9 da ANP, de 7 de março de 2007, determina que todos os postos de combustíveis devem ter kits para realizar esses testes. Neste caso, um densímetro que deve apontar no máximo 0,75425 t/m3 para a gasolina.

O que é o metanol?

Segundo a ANP, o metanol é um dos compostos orgânicos mais relevantes na indústria química. Ele é usado como matéria-prima na fabricação de produtos como adesivos, solventes, pisos e revestimentos.

Produzido a partir do gás natural, o metanol também é usado na fabricação do biodiesel — um combustível renovável misturado ao diesel comum.

A agência aponta que os produtores do biodiesel correspondem a 52% do consumo de etanol no Brasil e o restante está aplicado em produtos como formol, resinas e na preparação de madeiras e compensados.

O metanol pode ser usado para adulterar etanol e gasolina, oferecendo “riscos à saúde humana e à segurança pública e privada, quando armazenado e transportado sem os cuidados necessários”, segundo a ANP.

De acordo com as resoluções 807/2020 e 907/2022, a ANP permite um limite máximo de 0,5% de metanol na composição da gasolina e do etanol.

“Toda unidade revendedora, bem como a distribuidora, precisa ter o kit de análise do combustível. Esse mesmo kit pode ser utilizado, caso o consumidor tenha alguma dúvida”, comenta Luciano Santos, coordenador do Sindipostos do Piauí.