Lei da Anistia proposta por chavistas na Venezuela não inclui perdão ‘graves violações’ dos direitos humanos

A presidente interina da Venezuela, Delcy Rodriguez, discursa em 8 de janeiro de 2026 durante a cerimônia em homenagem a militares e seguranças venezuelanos e cubanos que morreram durante a operação dos EUA para capturar o presidente Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores — Foto: Leonardo Fernandez Viloria/Reuters

A presidente interina da Venezuela, Delcy Rodriguez, discursa em 8 de janeiro de 2026 durante a cerimônia em homenagem a militares e seguranças venezuelanos e cubanos que morreram durante a operação dos EUA para capturar o presidente Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores — Foto: Leonardo Fernandez Viloria/Reuters

O Parlamento da Venezuela debate a partir desta quinta-feira (5) uma lei de anistia que abrange os 27 anos do chavismo e exclui “graves violações” de direitos humanos e crimes contra a humanidade.

A “Lei de anistia para a convivência democrática” é uma iniciativa da presidente interina Delcy Rodríguez, no poder após a captura de Nicolás Maduro em uma incursão militar americana.

O debate final do projeto, artigo por artigo, ainda deve demorar a ocorrer.

“Reconhece-se a importância de não impor a vingança, a revanche nem o ódio, mas de abrir um caminho rumo à reconciliação”, diz o texto de justificativa legislativa, segundo a AFP.

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“Ficam excluídos de seus benefícios” crimes como “graves violações de direitos humanos, crimes contra a humanidade, crimes de guerra, homicídio doloso, corrupção e tráfico de drogas”, acrescenta.

Especialistas temem que o texto seja suficientemente vago para permitir discricionariedade do Judiciário, já acusado de servir ao chavismo.

A exclusão, em todo caso, responderia a um “estrito acatamento” da Constituição venezuelana, que já proíbe incluir esse tipo de crime em qualquer indulto ou anistia.

O Tribunal Penal Internacional investiga possíveis crimes contra a humanidade cometidos na Venezuela durante o governo de Maduro desde 2017.

Defesa da ‘convivência’

A presidente interina propôs há uma semana uma anistia geral que abranja os 27 anos do chavismo no poder.

“O que gostaríamos é que essa lei dê uma mensagem poderosa, contundente, da intenção de um novo momento político” e “esperamos alcançar consensos suficientes para que a lei de Anistia seja aprovada por unanimidade”, afirmou na quarta-feira (4) o presidente da Assembleia Nacional, Jorge Rodríguez, irmão da presidente e atualmente primeiro na linha de sucessão.

O chavismo tem maioria absoluta no Parlamento unicameral.

“A anistia geral proposta busca a justiça e a convivência entre os venezuelanos”, afirma o texto de justificativa, que aposta na “coexistência a partir da diversidade e da pluralidade”.

O debate chega ao Parlamento em paralelo a um novo processo de diálogo político entre o governo e uma fração da oposição afastada do grupo liderado pela prêmio Nobel da Paz María Corina Machado.

Outros processos de negociação fracassaram no passado. Uma fonte que participou da primeira reunião destacou um tom “menos arrogante” do chavismo diante da pressão dos Estados Unidos, que falam em transição democrática. A oposição que participou do encontro quer novas eleições, embora não as apresse.

Em 3 de janeiro, um ataque dos EUA que bombardeou Caracas e a outras regiões vizinhas.

Delcy Rodríguez entregou o controle do petróleo e avança na retomada das relações com os Estados Unidos, além de impulsionar a anistia.

O projeto de lei é apresentado em meio a um lento processo de libertação de centenas de presos políticos ordenado pela presidente Rodríguez em 8 de janeiro.

Esta seria a segunda anistia na era do chavismo; a primeira foi aprovada ainda por Hugo Chávez, em 2007.

“A anistia é o marco que vai servir para que não se repita o que ocorreu no passado e para que o passado não sirva para deter ou frear processos de transição”, afirmou à AFP Alfredo Romero, diretor do Foro Penal.

“Um processo de reconciliação, de transição, não pode ser um processo de perseguição contra aqueles que detinham o poder anteriormente”, afirmou.