Por que a China devolveu cargas de soja do Brasil e uma grande exportadora cancelou embarques

Colheita de soja no Piauí. — Foto: Divulgação
Colheita de soja no Piauí. — Foto: Divulgação
Principal destino da soja brasileira, a China responde por cerca de 80% das exportações do produto.
Cerca de 20 navios brasileiros foram devolvidos pela China recentemente por apresentarem grãos de soja misturados a ervas daninhas proibidas no país asiático. Diante da situação, representantes do Ministério da Agricultura devem viajar à China na próxima semana para tratar do tema.
Na terça-feira (17), o ministro da Agricultura do Brasil, Carlos Fávaro, disse em coletiva de imprensa que a qualidade da soja brasileira “é inquestionável”, mas que a preocupação dos chineses é legítima.
Ele afirmou ainda que vai propor à China a criação de um protocolo sanitário específico para o comércio de soja.
Quando a pressão começou
Apesar de o caso ter ganhado repercussão nos últimos dias, a situação não é nova, afirma Raphael Bulascoschi, analista do mercado de soja da StoneX Brasil.
“O problema começou no final do ano passado, quando o GACC, órgão responsável pela fiscalização na China, informou ao governo brasileiro que carregamentos estavam chegando com excesso de sementes proibidas e materiais estranhos”, diz Bulascoschi.
“Recentemente, a China voltou a cobrar o Ministério da Agricultura de forma mais dura, o que levou o governo a adotar uma ‘postura de tolerância zero’ para evitar tensões diplomáticas e a emitir certificados fitossanitários com mais rigor”, acrescenta.
Na prática, diz ele, o Ministério passou a fazer inspeções mais frequentes e deixou de emitir certificados para carregamentos que não cumprem as exigências.
“Sem esse certificado, as empresas ficam impedidas de entregar a carga na China e de receber o pagamento”, explica.
Interrupção da Cargill
O g1 procurou a companhia, que informou que suas entidades representativas — a Associação Nacional dos Exportadores de Cereais (Anec) e a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove) — publicariam uma nota conjunta.
No entanto, as entidades não têm dado explicações. Na nota conjunta, publicada na quinta-feira (12), disseram apenas que acompanham “de forma atenta” os “recentes desdobramentos” das exportações de soja. (veja no final da reportagem)
O Ministério da Agricultura disse ao g1 que se reuniu com as principais tradings (comercializadoras de grãos) e associações do país e que, juntos, atuam para “superar eventuais dificuldades” e “assegurar os elevados padrões de qualidade dos produtos brasileiros”.
Fávaro ressaltou que, após essa reunião, nenhuma regra de inspeção foi flexibilizada. Ele disse isso após rumores de que o governo teria afrouxado normas.
Segundo o ministro, se tivesse ocorrido um “alívio” da parte do ministério, “os navios estavam navegando”, em referência a embarcações que não tiveram o certificado.
Impacto para as exportações
Analistas da Hedgepoint Global Markets avaliam que o caso é pontual e não deve afetar o volume de soja exportado para a China.
“A fila de navios nos portos brasileiros continua forte, com cerca de 17 milhões de toneladas de soja, sendo 10 milhões destinadas à China”, afirma Thais Italiani, gerente de Inteligência de Mercado.
“Até agora, não há registro de atrasos relevantes na saída de navios, o que indica que se trata de ajustes pontuais no processo de inspeção das cargas”, acrescentou.
Luiz Fernando Gutierrez Roque, coordenador de Inteligência de Mercado de Grãos e Oleaginosas da Hedgepoint Global Markets, afirma que 20 navios com cargas de soja representam entre 1,2 milhão e 1,5 milhão de toneladas.
“É pouco diante das 112 milhões de toneladas que o Brasil deve exportar no total no ano”, conclui.
Nota da Abiove e da Anec
“A Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (ABIOVE) e a Associação Nacional dos Exportadores de Cereais (ANEC) informam que estão acompanhando, de forma atenta e com preocupação, os recentes desdobramentos relacionados aos embarques de soja destinados ao mercado chinês.
Diante desse cenário, a ABIOVE e a ANEC reafirmam que seguem atuando de forma colaborativa e mantendo diálogo constante com as autoridades competentes e com as demais entidades da cadeia produtiva para buscar soluções que garantam a fluidez do comércio, a previsibilidade das operações, prezando pela segurança jurídica e fortalecimento das relações comerciais internacionais e pela garantia dos requisitos de fitossanidade.”
Como a guerra no Oriente Médio pode encarecer preço dos alimentos no Brasil





