As possíveis consequências devastadoras de um ataque dos EUA a usinas de energia do Irã

Trump ameaçou destruir rede de eletricidade do Irã — Foto: Atta Kenare/AFP via DW

Trump ameaçou destruir rede de eletricidade do Irã — Foto: Atta Kenare/AFP via DW

A guerra entre Estados Unidos e Irã pode atingir um novo patamar de escalada após o presidente americano, Donald Trump, reiterar suas ameaças de destruir usinas de energia iranianas. Tais ataques podem configurar crimes de guerra, segundo ONGs e especialistas.

“Terça-feira será o Dia da Usina Elétrica e o Dia da Ponte, tudo de uma vez, no Irã. Não haverá nada igual!!! Abram a porra do Estreito, seus bastardos loucos, ou vocês viverão num verdadeiro inferno – Vocês vão ver! Louvado seja Alá”, escreveu Trump na rede Truth Social.

O Irã reagiu rapidamente, indicando que pode responder lançando ataques retaliatórios contra a infraestrutura energética e as usinas de dessalinização dos países do Golfo aliados aos Estados Unidos.

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Nesta reportagem, você vai ver:

Como o Irã consegue bloquear o Estreito de Ormuz?

A estreita faixa marítima localizada na costa iraniana é vital para o comércio global de petróleo e gás natural liquefeito (GNL). O Estreito de Ormuz é a única ligação entre o Golfo Pérsico e os oceanos do mundo. Aproximadamente 20% de todo o petróleo consumido globalmente passa por essa rota, grande parte com destino à China, Índia e outros países da Ásia. Cerca de 20% do comércio mundial de GNL também depende dessa passagem.

O navio cargueiro de GLP Jag Vasant, de bandeira indiana, transportando gás liquefeito de petróleo, é visto no Porto de Mumbai, na Índia, após cruzar o Estreito de Ormuz, na quarta-feira, 1º de abril de 2026 — Foto: Rafiq Maqbool/AP

O navio cargueiro de GLP Jag Vasant, de bandeira indiana, transportando gás liquefeito de petróleo, é visto no Porto de Mumbai, na Índia, após cruzar o Estreito de Ormuz, na quarta-feira, 1º de abril de 2026 — Foto: Rafiq Maqbool/AP

Nas primeiras semanas do conflito, embarcações no Golfo Pérsico, no Estreito de Ormuz e no Golfo de Omã foram atingidas por projéteis lançados pelo Irã em diversas ocasiões, praticamente paralisando o tráfego marítimo.

Para o Irã, é relativamente simples causar danos significativos. De acordo com reportagem do jornal americano “The New York Times”, o chefe do Estado‑Maior dos EUA, Dan Caine, teria alertado Trump no Salão Oval que um único soldado iraniano em uma lancha rápida poderia disparar um míssil contra um petroleiro ou instalar uma mina naval.

Segundo o especialista em segurança Peter Neumann, em entrevista à emissora pública de televisão alemã ZDF, as empresas de navegação deixaram de enviar petroleiros para a região porque consideram as ameaças iranianas dignas de crédito. “Por isso, a via marítima está bloqueada, mesmo sem um bloqueio físico e sem que todo navio seja atacado”, afirmou Neumann.

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Donald Trump afirmou que começaria atacando a “maior” usina do Irã – sem especificar qual seria. É possível que os Estados Unidos estejam considerando atingir usinas termelétricas a gás, já que, segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), cerca de 80% da eletricidade iraniana em 2023 foi gerada a partir de gás natural.

A instalação mais importante desse tipo é a usina termelétrica de vapor e gás de Damavand, localizada perto de Teerã, com capacidade superior a 2.800 megawatts. Outra grande usina está situada na província de Mazandaran, às margens do Mar Cáspio, com uma capacidade superior a 2.200 megawatts.

O único reator nuclear iraniano, a usina de Bushehr, fica cerca de 760 quilômetros ao sul de Teerã, na costa do Golfo Pérsico. No meio deste mês, segundo o diretor-geral da AIEA, Rafael Grossi, um edifício localizado a 350 metros do reator já havia sido atingido e destruído. Ainda assim, um ataque direto ao próprio reator é considerado improvável devido às consequências imprevisíveis e potencialmente catastróficas.

Quais seriam as consequências para a população iraniana?

A economia iraniana já está profundamente afetada pela guerra. Mesmo durante o Ano-Novo persa, bazares e centros comerciais permaneceram vazios – resultado dos ataques, das sanções internacionais e da censura na internet imposta pelo governo. Há mais de três semanas, o país está praticamente isolado da rede internacional de internet.

Um ataque às usinas a gás ameaçaria diretamente o fornecimento de energia de milhões de iranianos. Um colapso elétrico teria consequências graves, como interrupção de sistemas de resfriamento e aquecimento, interrupção do abastecimento de água devido ao desligamento das bombas. Também seriam afetados o sistema bancário e a indústria.

O que o Irã pode atacar em resposta?

Em reposta às ameaças de Trump, Teerã sinalizou que pode atacar usinas de dessalinização na região do Golfo. Já ocorreram danos a instalações desse tipo no Bahrein e no Kuwait, provocados por ataques ou por destroços de mísseis – possivelmente um aviso indireto enviado pelo Irã.

Uma campanha sistemática contra essas estruturas representaria uma escalada ainda mais grave, colocando em risco o abastecimento de água de milhões de pessoas. Poucas regiões do mundo dependem tanto da dessalinização quanto os países do Golfo. Na árida Península Arábica, quase não há fontes naturais de água doce.

No total, os países da região possuem cerca de 3.400 usinas de dessalinização, sendo que em lugares como Catar e Bahrein essas plantas fornecem mais de 90% da água potável.

Essas instalações também desempenham papel fundamental no fornecimento de água para a indústria química e para centros de processamento de dados. Muitas delas ficam na costa do Golfo Pérsico –a apenas algumas centenas de quilômetros do território iraniano– e, portanto, extremamente vulneráveis.

Quais podem ser as consequências de tais ataques?

De acordo com uma análise do think tank americano Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), o impacto sobre o abastecimento de água nos países do Golfo dependerá da quantidade e da intensidade dos ataques. Danos isolados a uma única usina de dessalinização poderiam, inicialmente, ser compensados por outras instalações da região. No entanto, ataques com mísseis ou drones contra os grandes centros de distribuição de água representariam um risco muito maior.

“O efeito mais significativo poderia ser psicológico”, afirma o CSIS. Isso porque esse tipo de ataque comprometeria a imagem de segurança e estabilidade que sustenta grande parte do modelo econômico dos países do Golfo.

Mesmo que os governos consigam garantir o abastecimento temporário de água por meios alternativos, o prejuízo maior seria a provável retração de turistas, empresas e investidores, que tenderiam a se afastar ainda mais da região.

Crimes de guerra

Na segunda metade março, Trump fez suas primeiras ameaças de lançar ataques contra usinas de energia do Irã, mas posteriormente adiou várias vezes prazos de ultimatos enviados ao regime de Teerã.

Caso ataques contra essas infraestruturas venham a ser realmente executados, seja pelos EUA, Israel ou o Irã, eles poderiam configurar crimes de guerra, segundo especialistas.

“Atacar intencionalmente infraestruturas civis, como usinas de energia, é geralmente proibido. Mesmo nos casos excepcionais em que se qualificam como alvos militares, uma parte ainda não pode atacar usinas de energia se isso puder causar danos desproporcionais a civis. Dado que essas usinas são essenciais para atender às necessidades básicas e ao sustento de dezenas de milhões de civis, atacá-las seria desproporcional e, portanto, ilegal sob o direito internacional humanitário, podendo constituir um crime de guerra”, avaliou Erika Guevara-Rosas, Diretora Sênior de Pesquisa, Advocacia, Políticas e Campanhas da ONG Anistia Internacional.

Ao ameaçar com tais ataques, os EUA estão efetivamente indicando sua disposição de mergulhar um país inteiro na escuridão e de potencialmente privar seu povo de seus direitos humanos à vida, água, alimentação, saúde e um padrão de vida adequado, além de submetê-lo a dor e sofrimento severos”, acrescentou Guevara-Rosas.

Quando usinas de energia entram em colapso, consequências terríveis se alastram instantaneamente. Estações de bombeamento de água parariam de funcionar, água potável se tornaria escassa e doenças evitáveis se espalhariam. Hospitais ficariam sem eletricidade e combustível, forçando o cancelamento de cirurgias e o desligamento de equipamentos de suporte à vida. As redes de produção e distribuição de alimentos entrariam em colapso, agravando a fome e causando escassez generalizada de alimentos. Muitas empresas também fechariam as portas, com consequências econômicas devastadoras, incluindo desemprego em massa”, completou.