Eleições no Peru: boca de urna aponta Keiko Fujimori numericamente à frente, com 50,7% dos votos válidos; cenário é de empate técnico

Peru encerra votações do segundo turno da eleição presidencial.

Peru encerra votações do segundo turno da eleição presidencial.

Keiko Fujimori é a favorita para se tornar a nova presidente do Peru, segundo pesquisa de boca de urna publicada pelo instituto Ipsos neste domingo (7), logo após o fechamento das urnas no país. Devido à pequena diferença, o cenário da pesquisa é de empate técnico.

Keiko aparece com 50,7% dos votos válidos, segundo a pesquisa Ipsos. Seu concorrente, Roberto Sánchez, tem 49,3% dos votos. A margem de erro é de 3 pontos percentuais para mais ou para menos.

A boca de urna da Ipsos foi realizada com base em 18 mil entrevistas em todo o território peruano.

Já foram apuradas 51% das atas e a candidata Keiko Fujimori lidera com 52,7% dos votos contra 47,3% de Roberto Sánchez. Foram contabilizados até o momento mais de 10 milhões de votos.

A liderança de Keiko no início da apuração já era esperado, já que seu eleitorado está concentrado em Lima. Já Sánchez deve ter vantagem nas zonas eleitorais rurais, mais afastadas e que devem estar entre as últimas contabilizadas.

Os resultados oficiais podem demorar dias para sair, segundo a autoridade eleitoral peruana.

Keiko, filha do ex-presidente condenado Alberto Fujimori, havia sido a primeira colocada no primeiro turno, com 17,2% dos votos válidos. Sánchez conquistou 12,0% dos votos válidos na primeira votação.

Montagem mostra os candidatos à presidência do Peru Keiko Fujimori (dir.) e Roberto Sánchez em 7 de junho de 2026, dia da votação do segundo turno — Foto: ERNESTO BENAVIDES / AFP

Montagem mostra os candidatos à presidência do Peru Keiko Fujimori (dir.) e Roberto Sánchez em 7 de junho de 2026, dia da votação do segundo turno — Foto: ERNESTO BENAVIDES / AFP

As seções eleitorais foram fechadas às 17h locais (19h no horário de Brasília), após uma jornada sem maiores incidentes, ao contrário do caótico primeiro turno, marcado por falhas técnicas e denúncias de fraude.

Primeiro turno fragmentado

O país foi às urnas em meio a um cenário político fragmentado, com um recorde candidatos à presidência no país, 35 ao todo.

Lucas Berti, cientista político, pesquisador sobre o Peru no Observatório Político Sul-Americano e coordenador-executivo do Grupo de Relações Internacionais e Sul Global, afirma que, de fato, o que aconteceu nessas eleições no país não vem de um “vácuo”.

“É um sintoma de um processo de deslegitimação institucional que vem acontecendo nos últimos anos no país. E isso, na medida em que os presidentes eleitos não conseguem governar”, afirmou.

9 presidentes em 10 anos

O Peru contabilizou 9 presidentes em 10 anos. Para se ter ideia, os mandatos presidenciais no Peru são de 5 anos. Ou seja, em uma estabilidade democrática, o país teria apenas dois presidentes neste mesmo período. Porém, a realidade foi outra e alguns líderes não duraram nem 5 dias no cargo.

“Nestes anos, a liderança que mais durou foi a de Dina Boluarte, que ficou no poder por quase três anos. Mas, ao desagradar a oposição liderada pela coalizão fujimorista de Keiko no Congresso, também caiu”, diz Berti

Além disso, vale destacar o artigo 113 da Constituição peruana, que afirma que um presidente pode ser derrubado por “incapacidade moral ou física permanente” – e quem avalia esse diagnóstico são os parlamentares.

Então, por exemplo, se o Congresso não gosta simplesmente de uma lei que o presidente tenta passar, eles podem acionar esse artigo, votar e, em menos de 24 horas, derrubar um presidente que foi eleito pela maioria da população.

Para o cientista político Berti, essa facilidade do processo demonstra a fragilidade institucional em jogo no Peru. De acordo com ele, nos últimos anos, a coalizão fujimorista, de maioria absoluta no Congresso, vem articulando poderes, seja no Legislativo, nos tribunais ou no sistema judiciário.

Desde 2008, a filha de Alberto Fujimori lidera essa corrente fujimorista ao fundar o partido Fuerza Popular e tenta chegar ao Poder Executivo no Peru. Só que isso não acontece, explica Berti.

“Keiko perdeu as últimas três eleições (2011, 2016 e 2021) no segundo turno, por margens muito apertadas. E agora nessa eleição, em 2026, passa para o segundo turno com uma margem maior de votos. Alguns institutos dão vantagem para Keiko, outros para o Sánchez. O que indica uma coisa: a eleição será difícil e o resultado ainda está em aberto”, diz Berti.

Democracia em crise: ‘desconfiança crônica’

A consequência dessa queda de braço entre Executivo e Legislativo no país resultou não só em uma profunda crise política, mas também na forma como a população enxerga a democracia.

“A credibilidade das instituições é baixíssima se olharmos os últimos 10 anos. E a desconfiança no Congresso passa de 90%, especialmente durante o processo que iria resultar na queda da ex-presidente Dina Boluarte, em 2025”, explica Berti.

Os dados mais recentes da pesquisa do Latinobarómetro, que mede o nível de democracia nos países da América Latina, apontam que o Peru enfrenta um dos níveis mais baixos de confiança nas instituições se comparado a outros países da América Latina. Há o que pode ser classificado como uma “desconfiança crônica”.

De acordo com os dados, 90% dos peruanos têm pouca ou nenhuma confiança no governo e no Congresso; e apenas 10% apenas se dizem satisfeitos com a democracia. Além disso, a pesquisa também notou outro sentimento perigoso: a indiferença sobre a política ou ao tipo de regime de governo.

“Existe uma facilidade muito grande de criar partidos no Peru e são partidos chamados de ‘pouco institucionalizados’. São partidos que não têm raízes efetivas em uma sociedade, que não é um partido que entra para a disputa durante 20, 40 anos. Mas sim legendas que surgem e somem, assim como também não há uma fidelidade dos candidatos aos partidos, que trocam de coalizão também com facilidade”, explica Berti.

Todo esse cenário reforça no eleitor a lógica de que os candidatos chegam muitas vezes a uma eleição sem base sólida ou sem um partido conhecido. Isso acaba gerando uma leitura de desconfiança e, muitas vezes, um descrédito e temor da facilidade com que essas pessoas eleitas podem cair.

*Com informações de Thais Fascina, da GloboNews