Esquerda x direita: veja como está o mapa da América do Sul após a eleição presidencial na Colômbia

Abelardo de la Espriella vence as eleições presidenciais na Colômbia, aponta apuração preliminar

Abelardo de la Espriella vence as eleições presidenciais na Colômbia, aponta apuração preliminar

A vitória de Abelardo de la Espriella na eleição presidencial da Colômbia deu à direita a superioridade sobre a esquerda nos governos dos países da América do Sul.

Com a vitória de Espriella, a direita ultrapassou a esquerda nos governos da América do Sul, controlando sete dos 12 países sul-americanos.

A vitória marcou não apenas uma virada ideológica na Colômbia —já que o candidato do presidente esquerdista Gustavo Petro foi derrotado—, mas também uma consolidação do avanço da direita no continente, que saiu vitoriosa nas últimas três eleições presidenciais:

Veja no mapa abaixo como está a atual disposição entre direita e esquerda na América Latina.

Mapa mostra disposição entre países governados pela esquerda e pela direita na América Latina após eleição na Colômbia em junho de 2026. — Foto: Bruna Azevedo/Arte g1

Mapa mostra disposição entre países governados pela esquerda e pela direita na América Latina após eleição na Colômbia em junho de 2026. — Foto: Bruna Azevedo/Arte g1

O Peru aparece em cinza no mapa acima porque sua eleição se encontra no final da apuração, que já dura duas semanas. Apesar disso, ele é considerado o 7º país governado pela direita porque o governo que está deixando o poder é de Dina Baluarte, de direita, e a candidata direitista Keiko Fujimori está com 50,111% dos votos, 41 mil à frente do esquerdista Roberto Sánchez, com mais de 99,6% das urnas apuradas. Ou seja, a tendência política vai se manter.

Historicamente, as forças políticas da região alternam períodos de domínio. Apesar de a esquerda ter prevalecido no continente no início do século 21, com a chamada “onda rosa”, a direita recuperou espaço nos últimos anos.

Nos últimos meses, a direita contou com a ajuda do Chile e da Bolívia para chegar a esse cenário a um equilíbrio de poderes. Após quase duas décadas no poder, a esquerda ficou de fora do segundo turno das eleições bolivianas. A vitória foi de Rodrigo Paz, em 19 de outubro.

Em entrevistas realizadas na época da eleição de Rodrigo Paz na Bolívia, o g1 ouviu especialistas para explicarem o cenário de instabilidade e polarização na região. Confira:

🔍 Maurício Santoro, doutor em Ciência Política pelo Iuperj e colaborador do Centro de Estudos Político-Estratégicos da Marinha do Brasil, explica que o continente viveu uma guinada conservadora após 2010, com o esgotamento do ciclo econômico iniciado com o “boom” global das commodities.

“O que a gente tem agora é um continente que está bem dividido ideologicamente. O que chama atenção é termos um cenário internacional marcado por dificuldade de diálogo e cooperação de governos latino-americanos de diferentes orientações ideológicas.”

🔍 Já Regiane Nitsch Bressan, professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), explica que a América Latina vive momentos pendulares na política. Segundo ela, a alternância ideológica é algo natural nas democracias, mas se torna delicada quando ocorre em contextos de fragilidade institucional.

“Existe um problema estrutural na América Latina por conta da nossa história, da nossa economia e do fato de vivermos com desigualdade e pobreza. Isso leva à descrença nas instituições democráticas. Essa alternância tão pendular, ela facilmente se move para governos autoritários.”

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Esquerda x direita

Abelardo De La Espriella — Foto: Charlie Cordero/Reuters

Abelardo De La Espriella — Foto: Charlie Cordero/Reuters

Na história recente da América do Sul, forças de esquerda e direita têm se alternado no poder. Muitos países viveram ditaduras na segunda metade do século 20, como o Brasil. Na década de 1990, o cenário se inclinava para governos de perfil conservador, com agendas neoliberais.

🔴 Segundo o professor Maurício Santoro, o revezamento entre correntes ideológicas era raro nessa época, já que partidos mais progressistas tinham dificuldades para vencer eleições. O quadro começou a mudar no início dos anos 2000, com a chamada “onda rosa”.

  • O termo se popularizou após ser usado pelo jornalista Larry Rohter, do jornal americano The New York Times, depois da vitória de Tabaré Vázquez nas eleições de 2004 no Uruguai.
  • Naquele momento, havia um sentimento de mudança no continente, impulsionado pelo desejo de reduzir a pobreza e a desigualdade.
  • Os novos governos de esquerda chegaram ao poder durante a alta global das commodities, estimulada principalmente pela demanda da China.
  • Com o aumento das receitas, algumas gestões conseguiram investir em programas sociais e políticas de redistribuição de renda.

“Os produtos de exportação da América Latina, agrícolas ou minerais, estavam muito valorizados no mercado internacional. Isso deu muito dinheiro na mão dos governos, e alguns presidentes conseguiram usar esse dinheiro de uma maneira muito boa”, afirma Santoro.

➡️ A professora Regiane Nitsch Bressan explica que, após a crise econômica mundial de 2008, as commodities começaram a perder valor, o que dificultou a permanência dos governos progressistas. Na década seguinte, o campo conservador voltou a ganhar espaço — movimento que também ocorreu em outras partes do mundo.

“A gente não pode deixar de observar que há uma grande força da direita, e isso não acontece só na nossa região. Esse movimento começa, eu diria, no Reino Unido, com o Brexit, que foi uma grande prova de que a esquerda estava perdendo espaço”, diz.

“Depois, esse avanço se espalha para a Europa, chega aos Estados Unidos e, em seguida, à América Latina, onde ainda encontra muito espaço.”

  • Em 2015, a América do Sul tinha oito governos alinhados à esquerda e quatro à direita.
  • Três anos depois, o cenário se inverteu, com avanço dos conservadores.
  • Essa tendência recuou a partir de 2020, após a pandemia.
  • A partir de 2026, seis países são governados por líderes de esquerda e seis pela direita.

Democracia e instabilidade

Manifestantes ateiam fogo em Tribunal Eleitoral de Sucre, na Bolívia, após denúncia de fraude na eleição presidencial de 2019 — Foto: Jose Luis Rodriguez/AFP

Manifestantes ateiam fogo em Tribunal Eleitoral de Sucre, na Bolívia, após denúncia de fraude na eleição presidencial de 2019 — Foto: Jose Luis Rodriguez/AFP

Mesmo com o avanço nas últimas décadas, a América do Sul ainda enfrenta desafios para consolidar as instituições democráticas. O índice de democracia do instituto sueco V-Dem mostra que a região passou por altos e baixos nos últimos 100 anos. Veja no gráfico mais abaixo.

😡 A professora Regiane Nitsch Bressan destaca que a instabilidade democrática na região tem raízes estruturais. Segundo ela, os problemas de desigualdade e pobreza são ameaças constantes por alimentarem a descrença nas instituições.

“O povo latino-americano, por estar cansado das instituições democráticas, é muito seduzido por governos populistas ou neopopulistas. Ou seja, aqueles governos que apresentam frases de efeito e dizem que vão resolver o problema a curto prazo”, afirma. O fenômeno do avanço da extrema direita se repete em outras partes do mundo.

  • Discursos nesse sentido aparecem em líderes tanto de direita quanto de esquerda.
  • Como exemplo, a professora cita Hugo Chávez, ex-presidente da Venezuela, e Javier Milei, atual mandatário da Argentina.
  • Ainda segundo ela, pesquisas recentes mostram que parte da população latino-americana prefere governos que ofereçam soluções econômicas rápidas, mesmo que sejam autoritários.
  • Bressan avalia que o problema não está na ideologia política, mas no risco de surgimento de regimes autoritários.

“Eu elejo um político de esquerda com esse discurso e ele não resolve o meu problema. Então vou lá e troco por um de direita. Essa alternância tão pendular facilmente se move para governos autoritários.”

🤜 Também se somam a esse cenário outros desafios, como o confronto crônico entre Executivo e Legislativo — comum em regimes presidencialistas — e o uso político da Justiça em disputas de poder, o que enfraquece o Estado de Direito e esvazia as instituições.

“O processo de redemocratização na América Latina ainda é muito jovem, e nós ainda não demos conta de fortalecer e consolidar as nossas instituições democráticas”, afirma.

O cientista político Maurício Santoro complementa dizendo que, atualmente, um dos principais fatores de preocupação é a polarização. Segundo ele, lideranças de diferentes espectros ideológicos têm se tornado mais extremas em suas propostas e perdido a capacidade de diálogo. O Uruguai é exceção —onde direita e esquerda se revezam no poder sem presença de extremos.

“A polarização regional está inviabilizando iniciativas de integração e respostas unificadas a desafios políticos e de segurança, como o avanço do crime organizado e até mesmo a longa crise venezuelana.”

🌎 Santoro avalia ainda que a instabilidade política dos últimos anos na América do Sul faz parte de uma crise global mais ampla, que também afeta países da Europa, além dos Estados Unidos.

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