Crise em Ceuta: entenda por que milhares de marroquinos chegaram à Espanha, mas ainda assim não saíram da África

Vídeos mostram imigrantes do Marrocos chegando a nado em Ceuta, cidade da Espanha

Vídeos mostram imigrantes do Marrocos chegando a nado em Ceuta, cidade da Espanha

Isso porque a travessia marítima os levou até Ceuta, um exclave espanhol no norte do continente africano — ou seja, um território que pertence à Espanha, mas está separado do restante do país e não possui ligação terrestre com ele.

Além de Ceuta, a Espanha também possui Melilha, outro território localizado no norte da África.

Ao todo, mais de 49 mil imigrantes entraram em Ceuta nas últimas 24 horas, afirmou nesta sexta-feira (31) o Ministério do Interior da Espanha. A ma

ioria é formada por jovens marroquinos, mas também há famílias e crianças.

Mapa mostra localizações de Ceuta e Melilla, exclaves espanhóis na África, em meio a crise migratória em julho de 2026. — Foto: Dhara Pereira e Lara Bernardino/Arte g1

Mapa mostra localizações de Ceuta e Melilla, exclaves espanhóis na África, em meio a crise migratória em julho de 2026. — Foto: Dhara Pereira e Lara Bernardino/Arte g1

Por que a Espanha ainda controla um território africano?

Tanto Ceuta quanto Melilha são heranças da expansão marítima europeia iniciada entre os séculos 15 e 16. Ceuta é controlada pela Espanha desde 1668, enquato Melilha está sob domínio desde 1497. Ao longo dos séculos, as duas cidades permaneceram ligadas à Coroa espanhola mesmo após as transformações políticas no norte da África.

Mesmo quando o Marrocos conquistou sua independência dos franceses e espanhóis, em 1956, Madri manteve a administração dos dois territórios. Desde então, o país africano reivindica a soberania sobre as cidades e considera que elas deveriam ser incorporadas ao seu território.

A Espanha, por sua vez, argumenta que Ceuta e Melilha fazem parte do país há séculos e possuem o mesmo status de outras cidades espanholas.

A disputa nunca foi resolvida. Marrocos não reconhece oficialmente a soberania espanhola sobre os territórios e frequentemente se refere a eles como terras ocupadas pelo colonialismo europeu.

Hoje, Ceuta tem cerca de 84 mil habitantes. Entre 40% e 50% da população é formada por muçulmanos de origem marroquina, mas a cidade também abriga comunidades cristãs, judaicas e hindus. O território ocupa uma área de apenas 18,5 km² — menor até mesmo que o arquipélago de Fernando de Noronha, que tem cerca de 26 km².

Ao lado de Melilha, a cidade se tornou uma das principais portas de entrada de migrantes que tentam alcançar território europeu.

Migrantes entram em Ceuta, enclave espanhol no norte da África, vindos do Marrocos. — Foto: Antonio Sempere / AP

Migrantes entram em Ceuta, enclave espanhol no norte da África, vindos do Marrocos. — Foto: Antonio Sempere / AP

Continente africano, direito europeu

Apesar de ainda estarem no continente africano, por se tratar de um território espanhol, os milhares de marroquinos que fizeram a travessia já estão, do ponto de vista jurídico e político, em solo europeu.

A expectativa de muitos deles ao chegarem à UE está ligada ao Espaço Schengen, acordo que aboliu os controles de fronteira entre 29 países europeus e permite a livre circulação de pessoas dentro da área.

Em tese, quem consegue entrar e permanecer legalmente em um dos países participantes pode viajar para os demais sem passar por novos controles de imigração. Por isso, muitos migrantes veem a chegada a território europeu como uma porta de entrada para outros países do bloco.

Na prática, porém, o processo é mais complexo. A chegada a Ceuta não garante automaticamente o direito de circular pelo continente, já que, por terem vindo do Marrocos, os imigrantes ainda precisam passar pelos procedimentos migratórios das autoridades espanholas e europeias.

Segundo comunicado enviado pelo Ministério do Interior italiano, a decisão impõe o fechamento das fronteiras aéreas e marítimas com a Espanha e o retorno temporário das inspeções para pessoas provenientes do território espanhol — medida prevista pelo próprio tratado “em caso de grave ameaça à ordem pública ou à segurança interna”, segundo a mensagem.

Como a Itália não possui fronteira terrestre com a Espanha, a medida afetará pessoas que viajam de avião ou barco entre os dois países

VEJA TAMBÉM

Milhares de joverns do Marrocos atravessaram o mar para chegar à fronteira marítima nesta quinta-feira — Foto: Lucia Diaz / AFP

Milhares de joverns do Marrocos atravessaram o mar para chegar à fronteira marítima nesta quinta-feira — Foto: Lucia Diaz / AFP

Multidão entra em Ceuta após pular cerca de segurança na fronteira terrestre com Marrocos nesta sexta (31) — Foto: REUTERS