China, grande compradora de frango brasileiro, agora avança nas exportações e pode virar concorrente do Brasil

China segue como principal destino do agro brasileiro, mas mercado dá sinais de mudança

China segue como principal destino do agro brasileiro, mas mercado dá sinais de mudança

A China está produzindo cada vez mais carne de frango e o excedente começa a ser vendido para outros países.

O movimento pode transformar um dos grandes compradores do frango brasileiro em um concorrente do Brasil no mercado internacional, principalmente no Oriente Médio, na Ásia e na África, segundo analise de um especialista do Rabobank (banco especializado em agronegócio e alimentos)

A China se tornou exportadora líquida de carne de frango em 2025. Ou seja, passou a vender para outros países mais da proteína do que compra do exterior.

Em entrevista à agência Reuters, Chenjun Pan apontou que a tendência é de que os embarques chineses continuem crescendo nos próximos anos.

“Potencialmente, não agora, mas talvez na próxima década, possa haver alguma competição no Oriente Médio, na Ásia e na África” entre a carne de frango chinesa e a brasileira, afirmou Pan em entrevista à Reuters durante passagem pelo escritório do Rabobank em São Paulo.

O Brasil é o maior exportador mundial de frango. Em 2025, o país embarcou um recorde de 5,3 milhões de toneladas.

A China, por sua vez, exportou pouco mais de 1 milhão de toneladas e ficou em quinto lugar entre os maiores exportadores mundiais.

Ao mesmo tempo, o país asiático continua sendo um dos principais compradores do frango brasileiro.

Frango em granja de MS habilitada para exportação — Foto: TV Morena/Reprodução

Frango em granja de MS habilitada para exportação — Foto: TV Morena/Reprodução

De janeiro a julho de 2026, a China foi o principal destino da proteína brasileira, com 355,8 mil toneladas. Só em julho, foram 70,5 mil toneladas, também o maior volume entre os compradores naquele mês.

Mas o volume comprado pela China vem caindo nos últimos anos. O país foi o principal destino do frango brasileiro por quatro anos seguidos, de 2021 a 2024. Em 2025, porém, as compras caíram 55,5%, para 250,3 mil toneladas, e a China passou para a sexta posição entre os principais destinos da carne de frango brasileira.

Exportações do Brasil para a China caíram — Foto: g1

Exportações do Brasil para a China caíram — Foto: g1

China está produzindo mais frango do que os chineses consomem

O avanço chinês tem uma explicação simples: a produção está crescendo mais rápido que o consumo.

No primeiro semestre deste ano, a produção de frango da China aumentou mais de 9% em relação ao mesmo período de 2025. No ano passado, o crescimento havia sido de cerca de 7%, segundo Pan.

“Está muito, muito forte o crescimento. O aumento da demanda é forte, mas não tão forte quanto o crescimento da produção”, disse a especialista.

Isso faz com que sobre mais carne para ser vendida no exterior.

E há uma particularidade no gosto do consumidor chinês que ajuda a explicar esse movimento. Os chineses preferem cortes como asas e pés de frango, enquanto o peito tem menor procura no mercado doméstico.

“Os chineses não gostam de carne de peito por uma questão de hábito alimentar. Eles gostam de comer asas e pés”, afirmou Pan.

É justamente essa diferença entre o que o consumidor chinês quer comer e o que as granjas produzem que abre espaço para as exportações.

De processados a cortes de frango in natura

A China já exportava carne de frango há anos, mas principalmente produtos processados. Agora, o país começa a ganhar espaço também nas vendas de carne in natura, como o peito de frango.

Esse segmento vem crescendo rapidamente, segundo Pan.

Entre os destinos da produção chinesa estão Rússia, Hong Kong, Coreia do Norte e países do Oriente Médio, alguns dos mercados em que o Brasil também atua.

A concorrência, porém, ainda tem limites. União Europeia, Japão e Coreia do Sul não aceitam carne de frangos vacinados contra a gripe aviária, o que restringe o acesso da produção chinesa a esses mercados.

Crise da carne suína ajudou a impulsionar o frango

O aumento da produção de frango também faz parte de uma estratégia mais ampla da China para reduzir sua dependência da carne suína.

O país é o maior consumidor mundial de carne de porco. Entre 2019 e 2021, porém, a peste suína africana provocou uma forte redução da oferta, fazendo os preços dispararem.

A crise tornou o frango mais atrativo e estimulou investimentos para aumentar a capacidade de produção.

Com isso, a participação do frango no mercado chinês de carnes chegou a 28%, segundo Pan.

A proteína também interessa ao governo chinês porque sua produção exige menos milho e farelo de soja para cada unidade de proteína produzida do que a carne suína. Isso ajuda a reduzir a necessidade de importar grãos usados na alimentação dos animais.

Para Pan, a mudança nos hábitos de consumo e a expectativa de queda na produção de carne suína devem limitar o crescimento da demanda chinesa por soja.

Carne bovina pode ser oportunidade para o Brasil

Enquanto o frango chinês ganha espaço no exterior, a especialista vê potencial de crescimento para outro produto brasileiro na China: a carne bovina.

O mercado chinês enfrenta atualmente restrições de oferta, incluindo tarifas de importação extracota mais altas para o Brasil e outros fornecedores.

Segundo Pan, essas tarifas devem continuar até 2028. Depois disso, o Brasil poderá encontrar novas oportunidades no mercado chinês.

A especialista avalia que o consumidor chinês está mudando e buscando cada vez mais produtos de maior valor agregado, em vez de apenas commodities.