Pagar para pedir demissão? Por que jovens japoneses contratam empresas para evitar o confronto com o chefe

Computador, digitação, laptop, notebook, trabalho, internet — Foto: CDC/ Amanda Mills

Computador, digitação, laptop, notebook, trabalho, internet — Foto: CDC/ Amanda Mills

Para Y.M., um japonês de pouco mais de 20 anos, o primeiro emprego após a universidade, numa empresa de vendas do setor imobiliário, se transformou em um teste diário de resistência. Entre os colegas, era ele quem costumava ser alvo de gritos e reprimendas.

Preocupado com a opinião dos colegas, relutante em preocupar os pais e decidido a evitar conflitos no ambiente de trabalho, ele recorreu ao celular para buscar uma alternativa: um serviço terceirizado de demissão, que comunica o desligamento ao empregador em nome do funcionário.

No Japão, desaparecer do trabalho sem aviso prévio é conhecido como bakkure, prática que guarda certa semelhança com o chamado “ghosting” nos relacionamentos.

Agora no g1

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Em muitos países, abandonar um emprego sem comunicação é visto como uma atitude irresponsável. Dentro da lógica das interações sociais japonesas, porém, desaparecer pode ser uma forma de evitar confrontos e preservar a harmonia, ao menos na aparência.

Pagar para ir embora

A procura por empresas que intermedeiam pedidos de demissão está em alta. A Albatross, uma das principais companhias do setor, auxilia cerca de 450 pessoas por mês a deixar seus empregos sem contato direto com os superiores.

O serviço custa aproximadamente 120 euros (cerca de R$ 713) para trabalhadores em tempo integral. A maioria dos clientes é formada por jovens profissionais dos setores de serviços e manufatura. O processo pode ser concluído em até 15 minutos.

“As razões que levam as pessoas a pedir que nos encarreguemos da demissão vão de violência física a assédio sexual”, afirmou Yuka Hamada, diretora-executiva da Albatross. “São pessoas vulneráveis e que não se sentem capazes de pedir demissão por conta própria.”

Uma pesquisa da consultoria Shikigaku com trabalhadores japoneses de 20 a 49 anos mostrou que cerca de um terço dos entrevistados relatou ter sofrido algum tipo de assédio no ambiente de trabalho.

Harmonia acima de tudo

A cultura corporativa tradicional japonesa ganhou forma durante o período de crescimento econômico do pós-guerra e está fortemente associada ao conceito de emprego vitalício.

Nesse contexto, a lealdade à empresa é tratada como uma virtude central, e muitos gestores interpretam pedidos de demissão como uma afronta pessoal. Por isso, diversos jovens trabalhadores hesitam em comunicar sua saída diretamente.

“Anunciar a intenção de pedir demissão pode parecer não apenas o encerramento de um contrato, mas também uma forma de decepcionar pessoas ou trair expectativas que se buscou atender durante anos”, afirmou Hiroki Nakamori, professor associado da Escola de Pós-Graduação em Estudos de Design Social da Universidade Rikkyo.

Segundo Hiroshi Ono, professor de gestão de recursos humanos da Escola de Negócios da Universidade Hitotsubashi, o Japão é uma sociedade pouco inclinada ao confronto, onde se espera que os indivíduos se adaptem aos compromissos assumidos com a empresa e sua cultura organizacional.

“Quem perturba a harmonia não costuma ser bem-visto. Por isso, alguém que está saindo pode sentir que o melhor é simplesmente desaparecer sem causar alarde”, disse Ono. “Agir coletivamente e em harmonia é considerado um sinal de força”, acrescentou.

Essa tendência a evitar conflitos tem raízes profundas na sociedade japonesa. A Constituição dos Dezessete Artigos, compilada no início do século 7 e considerada um importante marco do pensamento político do Japão antigo, já defendia que a harmonia deveria ser priorizada e as disputas evitadas.

Desaparecer sem deixar de ser educado

Mas até mesmo abandonar um emprego pode ser feito de maneira considerada cortês. “Os clientes podem não se despedir nem agradecer diretamente à empresa. Nesses casos, a agência pode transmitir essas mensagens em seu nome”, afirmou Hamada.

Trata-se de um dos paradoxos da cultura corporativa japonesa. Mesmo ao optar por desaparecer, muitos funcionários sentem a obrigação de seguir o princípio do meiwaku, que valoriza a redução de transtornos para os outros e a preservação da ordem coletiva.

Essa preocupação também se estende aos pertences deixados no local de trabalho. “Mesmo quando o cliente pretende desaparecer completamente, orientamos que esvazie sua mesa antes de sair”, disse Hamada.