Milei é o único presidente da América do Sul a não reconhecer vitória de Lula

Milei e Lula — Foto: REUTERS/Tierney L. Cross e REUTERS/Diego Vara

Milei e Lula — Foto: REUTERS/Tierney L. Cross e REUTERS/Diego Vara

O presidente da Argentina, Javier Milei, era o único líder da América do Sul que ainda não havia reconhecido a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas eleições brasileiras, até a última segunda-feira (26). A maioria dos líderes da região, muitos deles representantes da direita, reconheceu o resultado e parabenizou o presidente brasileiro reeleito.

Os dois países mantêm uma das relações comerciais mais importantes da América do Sul, com forte integração industrial e participação central no Mercosul.

➡️ Em 2025, o Brasil foi o principal destino das exportações argentinas, com mais de US$ 12,8 bilhões em vendas, e também sua maior origem de importações, com US$ 18,4 bilhões em produtos comprados, segundo dados do governo argentino.

O líder colombiano Abelardo de La Espriella, que foi eleito com apoio do presidente americano Donald Trump e deu apoio público à campanha derrotada de Flávio Bolsonaro (PL), declarou que não têm afinidade e são de lados opostos do espectro político. Em sua fala de reconhecimento do resultado, entretanto, estendeu a mão para que os países continuem cooperando.

Já o equatoriano Daniel Noboa afirmou que a América Latina tem inimigos em comum e desafios compartilhados em sua mensagem de parabenização. O chileno José Antonio Kast disse que ligou para cumprimentar Lula e afirmou que os dois países têm um futuro em comum.

A líder peruana Keiko Fujimori defendeu o fortalecimento da aliança estratégica entre os dois países, com ênfase na integração, na cooperação e no desenvolvimento sustentável da Amazônia compartilhada. Rodrigo Paz, presidente boliviano, por sua vez, parabenizou o brasileiro e destacou os laços históricos entre Bolívia e Brasil.

Todos eles foram apoiados por Trump em suas campanhas eleitorais e, hoje, compõe o Escudo das Américas.

🔎 O Escudo das Américas é uma aliança multinacional de cooperação militar, política e econômica liderada pelo governo dos Estados Unidos para combater organizações criminosas transnacionais e o narcotráfico

Além deles, os demais presidentes do continente que felicitaram o brasileiro foram:

  • Yamandú Orsi, presidente do Uruguai;
  • Delcy Rodríguez, presidente da Venezuela;
  • Yamandú Orsi, presidente do Uruguai;
  • Santiago Peña, presidente do Paraguai;
  • Irfaan Ali, presidente da Guiana;
  • Jennifer Geerlings-Simons, presidente do Suriname.

As reações contrastam com a postura de Milei, a única exceção da região.

Ele apoiou o senador Flávio Bolsonaro (PL) durante a campanha eleitoral e fez críticas a Lula nas redes sociais às vésperas da votação. O presidente argentino chamou o brasileiro de “ladrão corrupto” e o acusou de fazer uma campanha suja.

O silêncio de Milei ocorre em um cenário de avanço da direita na América do Sul e de aproximação de governos conservadores com a gestão republicana dos Estados Unidos.

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Relembre as trocas de ataques entre Milei e Lula

Em agosto, na convenção nacional do PL, em São Paulo, que oficializou a candidatura de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência, Milei fez ataques diretos a Lula e ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal.

Durante o evento, o argentino chamou Lula de “presidiário” e Moraes de “lixo careca”.

Milei também disse que Lula enviou marqueteiros ao país para interferir nas eleições presidenciais de 2023 e apoiar o candidato Sergio Massa, que foi derrotado.

“Eles tiveram um papel muito ativo na campanha de 2023. Ou vamos esquecer que os assessores de Massa eram um grupo de brasileiros? Eu quis ver o meu amigo Jair Bolsonaro e não me deixaram. Aqui, no entanto, o ex-presidiário (Lula) veio cumprimentar a ré (ex-presidente Cristina Kirchner)”, disse.

Na mesma semana, em entrevista à emissora argentina LN+, Milei voltou a subir o tom.

Ao comentar a reação do governo brasileiro, Milei afirmou que não considera as declarações agressivas.

“Agressivo é que alguém roube. É muito mais leve chamar um ladrão de ladrão do que o próprio ato de roubar”, disse.

Ele também afirmou que as ofensas foram “palavras espontâneas”.

Em nota, o governo classificou o episódio como “sem precedentes”. O chanceler Mauro Vieira disse considerar o caso grave, mas descartou, naquele momento, medidas mais duras, como a retirada definitiva de representantes diplomáticos.

Além disso, inicialmente, o presidente Lula evitou alimentar a polêmica. Ao ser questionado por jornalistas sobre Milei, respondeu: “Quem é esse cara?”.

“Eu não falei nada, porque a minha relação é uma relação de chefe de Estado com o Estado. (…) Eu gosto do povo argentino e não vou ficar trocando coisa com aquela coisa.”