Com crescente tensão entre EUA e países latinos, Brasil tem de ter cautela em negociação com Trump, avaliam diplomatas

Trump chama Gustavo Petro, presidente da Colômbia, de 'traficante de drogas ilegal'

Trump chama Gustavo Petro, presidente da Colômbia, de ‘traficante de drogas ilegal’

O governo brasileiro vê com preocupação o aumento da tensão entre os Estados Unidos e países da América Latina, como Venezuela e Colômbia. Mas o alerta não se dá só pela questão territorial ou de instabilidade na região.

A crescente troca de ameaças entre Donald Trump e os governos venezuelano e colombiano pode atrapalhar um momento crítico de negociação entre Brasil e Casa Branca, em que Lula e Trump tentam se entender para discutir o tarifaço.

Depois do encontro entre o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, e o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, na última quinta-feira (16), ficou acertado que uma primeira reunião técnica, entre negociadores brasileiros e uma equipe do governo norte-americano, será agendada para os próximos dias, de forma virtual.

O diálogo ocorre em meio a uma forte crise nas relações bilaterais, iniciada em julho, quando Trump anunciou tarifas de 50% a produtos brasileiros importados pelos americanos. Os EUA alegaram que o Brasil adota práticas desleais de comércio e promove uma “caça às bruxas” contra o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). As tarifas entraram em vigor no início de agosto.

Críticas a países latino-americanos

Neste domingo (19), Trump elevou o tom da crise ao chamar o presidente colombiano, Gustavo Petro, de “traficante de drogas ilegal” que incentiva a “produção massiva” de entorpecentes.

Ele afirmou ainda que os EUA vão cancelar “pagamentos e subsídios em larga escala” ao país sul-americano e alertou Petro de que “é melhor encerrar” as operações de drogas “ou os Estados Unidos as encerrarão por ele, e não será feito de forma gentil”.

Mais cedo, também neste domingo, Petro acusou o governo dos EUA de assassinato e exigiu respostas após o mais recente ataque americano em águas do Caribe.

Os ataques ocorrem em uma região próxima à costa da Venezuela, onde Trump admitiu ter autorizado ações da Agência Central de Inteligência (CIA). O governo venezuelano, que enviou caças, submarinos e navios de guerra, não descarta uma invasão por terra.

Segundo Trump, a operação busca combater os cartéis de drogas venezuelanos. Os EUA também acusam o presidente do país, Nicolás Maduro, de liderar o Cartel de los Soles, grupo classificado recentemente pelo governo Trump como organização terrorista internacional.

Lula pretende alertar Trump sobre Venezuela

Auxiliares afirmam que o presidente brasileiro pode usar um tom de alerta sobre a situação, querendo deixar claro a Trump que uma intervenção militar americana na Venezuela irá desestabilizar toda a região, criando um cenário mais propício para o narcotráfico.

Na quarta-feira (15), o presidente dos EUA afirmou ter autorizado operações secretas da CIA em território venezuelano e disse estar estudando ataques terrestres contra cartéis do país.

Encontro ‘fundamental’

O governo brasileiro avalia que é muito importante que a reunião entre Lula e Trump aconteça ainda em 2025. Lula embarca nesta terça (21) para a Malásia, para participar da cúpula da Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean).

O Planalto e o Itamaraty trabalham com a possibilidade de que o encontro bilateral aconteça durante essa viagem, mas ainda há incertezas sobre a compatibilidade das agendas dos dois mandatários.

Segundo auxiliares do governo, há um esforço em andamento para construir a reunião Lula-Trump este ano. Diplomatas acreditam que, uma vez realizado, o diálogo presencial em mais alto nível, entre os dois presidentes, dará um norte para a discussão.

“Há, no horizonte, muitas tentativas externas de pautar agendas paralelas e atrapalhar a relação bilateral. Tem muita espaçonave desgovernada no caminho, e a presença dos chefes de Estado, o quanto antes, é fundamental para impedir qualquer interferência”, disse uma fonte.

O Palácio do Planalto recebeu indicativos da Casa Branca de que os americanos também enxergam como ideal organizar a reunião com rapidez.