Como é a cidade brasileira que recebe milhares de venezuelanos em meio à crise no país vizinho
Impacto da captura de Maduro pelo governo Trump na fronteira do Brasil com a Venezuela

Fronteira do Brasil com a Venezuela — Foto: Caíque Rodrigues/g1 RR
Fronteira do Brasil com a Venezuela — Foto: Caíque Rodrigues/g1 RR
Com pouco mais de 19 mil habitantes, segundo estimativas do Censo 2022, o município está a cerca de 215 quilômetros de Boa Vista e é ligado ao restante do Brasil pela BR-174.
Do outro lado da fronteira fica a cidade venezuelana de Santa Elena de Uairén. A circulação entre os dois países sempre fez parte da dinâmica local, mas essa relação mudou profundamente a partir da segunda metade da década passada, quando estourou a crise na Venezuela.
Só em 2025, a cidade recebeu mais de 96 mil novos migrantes venezuelanos introduzidos na rotina do município. Em outubro de 2025, foram mais de 11 mil venezuelanos entrando por Pacaraima. Os dados são do Observatório das Migrações Internacionais (OBMigra).

Infográfico – Fronteira do Brasil com a Venezuela — Foto: Arte/g1
Infográfico – Fronteira do Brasil com a Venezuela — Foto: Arte/g1
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A Prefeitura de Pacaraima informou que a cidade segue em tranquilidade, com comércio funcionando normalmente e sem alterações na rotina. A gestão municipal afirmou que “acompanha os desdobramentos e mantém diálogo com as forças de segurança”.
Parte do cotidiano da cidade

Centro comercial de Pacaraima, na fronteira do Brasil com a Venezuela — Foto: Nalu Cardoso/g1 RR
Centro comercial de Pacaraima, na fronteira do Brasil com a Venezuela — Foto: Nalu Cardoso/g1 RR
Pequena e com estrutura limitada, Pacaraima viu crescer rapidamente a presença de venezuelanos em praças, postos de combustível e no comércio local. Muitos chegam a pé, carregando mochilas, sacolas e trazendo crianças, em busca de alimentação, trabalho e atendimento básico de saúde.
É nesse contexto que chegaram recentemente migrantes como José González, de 48 anos, natural de Maturín, no leste da Venezuela. Trabalhador autônomo, ele entrou no Brasil três dias antes dos novos desdobramentos políticos no país vizinho.

José González, de 48 anos, natural de Maturín, no leste da Venezuela — Foto: Ailton Alves/Rede Amazônica
José González, de 48 anos, natural de Maturín, no leste da Venezuela — Foto: Ailton Alves/Rede Amazônica
José afirma que a decisão de sair da Venezuela não está relacionada a rejeição ao país de origem, mas à dor de deixar um lugar que já não oferece segurança.
“O fato de estarmos aqui é porque a situação nos levou a esses extremos. Não é que a gente se sinta rejeitado pelo país, não”.
“O que a gente sente é dor pelo nosso país. A Venezuela nos dói”, disse.
Segundo ele, a instabilidade não se restringe a uma região específica. Ao falar sobre a notícia do ataque e da captura de Maduro, José diz ter sentido medo e incerteza, mas também esperança de uma solução diplomática.
“O que a gente espera agora é que tudo se resolva da melhor maneira, pelo diálogo. Quem sofre sempre é o povo inocente”, afirmou.
Ponto de ruptura

Local onde antes havia acampamento de venezuelanos às margens da BR-174 agora tem só restos de objetos queimados — Foto: Jackson Félix/G1 RR
Local onde antes havia acampamento de venezuelanos às margens da BR-174 agora tem só restos de objetos queimados — Foto: Jackson Félix/G1 RR
Ruas ficaram vazias, comércios fecharam as portas e Pacaraima ganhou projeção nacional como símbolo das dificuldades enfrentadas por municípios de fronteira diante de um fluxo migratório intenso.
Operação Acolhida

Cerca de 400 migrantes venezuelanos esperam em posto de triagem da Operação Acolhida em Pacaraima — Foto: Caíque Rodrigues/g1 RR
Cerca de 400 migrantes venezuelanos esperam em posto de triagem da Operação Acolhida em Pacaraima — Foto: Caíque Rodrigues/g1 RR
Ainda em 2018, foi criada a Operação Acolhida. Comandada pelo Exército do Brasil, a iniciativa estruturou a triagem, a vacinação, a regularização de documentos e a interiorização de migrantes para outros estados do país.
Fronteira fechada e ajuda humanitária
Pacaraima hoje em dia

Centro comerical de Pacaraima, em Roraima — Foto: Nalu Cardoso/g1 RR
Centro comerical de Pacaraima, em Roraima — Foto: Nalu Cardoso/g1 RR
Hoje, o espanhol é ouvido com frequência nas ruas, e venezuelanos trabalham em supermercados, restaurantes, oficinas, hotéis e no comércio informal.
Elizabeth Rincón, de 39 anos, é uma dessas migrantes. Ela chegou em Pacaraima há menos de um mês, deixou familiares na Venezuela e diz que os primeiros dias no Brasil foram marcados pela apreensão.
Vivendo longe do país natal, ela afirma que o futuro da Venezuela segue incerto e que a saída de Maduro não traz, por si só, segurança.
“Não me sinto aliviada, porque não sabemos o que vai acontecer agora. Tiraram Maduro, e depois? A gente não sabe. Deixamos tudo nas mãos de Deus”, afirmou.

Migrante venezuelana que vive em Pacaraima, na fronteira com a Venezuela — Foto: Ailton Alves/Rede Amazônica
Migrante venezuelana que vive em Pacaraima, na fronteira com a Venezuela — Foto: Ailton Alves/Rede Amazônica
Elizabeth conta que ficou abalada ao receber notícias confusas sobre o que estaria acontecendo no país, especialmente por causa da mãe, que continua na Venezuela.
“Fiquei triste, porque me disseram que tinha acontecido uma explosão, que a situação estava grave. Minha mãe está lá”, disse.
Ela afirma que conseguiu falar com a família e se acalmou parcialmente após saber que os episódios se concentraram em regiões específicas.
“Consegui falar com minha mãe cedo, e ela disse que estava tudo normal, que tinha sido mais em Caracas. Isso me aliviou um pouco”, contou.




