Governo Maduro pede que ONU exija aos EUA cancelar envio de navios à costa da Venezuela e fala de ‘gravíssima ameaça’

EUA divulgam imagens de embarcações enviadas para a costa da Venezuela

EUA divulgam imagens de embarcações enviadas para a costa da Venezuela

Diante de ameaças de uma intervenção dos Estados Unidos, o governo da Venezuela enviou uma carta à Organização das Nações Unidas (ONU) pedindo ajuda diante do avanço da frota enviada pelo governo norte-americano ao Caribe.

Em um carta assinada pelo presidente venezuelano, Nicolás Maduro, e endereçada ao secretário-geral da ONU, António Guterres, Caracas solicita que a ONU exija que o governo de Donald Trump cancele a operação naval a caminho da costa da Venezuela.

E chama a ofensiva de Trump de “ameaça gravíssima”.

“A humanidade e esta organização não podem permitir que, em pleno século XXI, ressurjam políticas de força que ponham em risco a paz e a segurança internacionais”, diz o documento. “Assim, solicito que vocês (…) instem ao governo dos Estados Unidos que ponham fim a essas ações hostis e respeitem a soberania, a integridade territorial e a independência polícia da República Bolivariana da Venezuela”.

Carta enviada pelo presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, ao secretário-geral da ONU, António Guterres, em 27 de agosto de 2025. — Foto: Divulgação/ Ministério das Relações Exteriores da Venezuela

Carta enviada pelo presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, ao secretário-geral da ONU, António Guterres, em 27 de agosto de 2025. — Foto: Divulgação/ Ministério das Relações Exteriores da Venezuela

No documento enviado à ONU, Maduro também acusa o governo dos EUA de “agressão” e de ameaça constante de invasão — a porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, prometeu usar “toda a força” contra o regime venezuelano e deixou no ar a possibilidade de um ataque. (Leia mais abaixo)

A carta foi enviada à ONU na quarta-feira (27), antes de que as embarcações norte-americanas chegassem ao sul do Caribe.

A ONU ainda não havia se manifestado sobre o tema até a última atualização desta reportagem.

A Venezuela recorre à ONU também em um momento de relações estremecidas com a organização. No ano passado, após as eleições venezuelanas nas quais Maduro alega ter vencido, um relatório elaborado pela ONU apontou falta de transparência no pleito e atestando a credibilidade das atas de votação que a oposição apresentou na ocasião atestando a vitória do candidato oposicionista.

Maduro aparece de farda

Maduro aparece de farda militar e fala em 'defender a soberania' após chegada de navios dos EUA

Maduro aparece de farda militar e fala em ‘defender a soberania’ após chegada de navios dos EUA

Em meio às tensões, o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, apareceu de farda militar ao visitar tropas na quinta-feira. Maduro falou em “defender a paz e a soberania nacional” contra uma “guerra psicológica” empregada pelo governo de Donald Trump e disse que o governo da Colômbia se uniu aos esforços dos venezuelanos para reforçar a segurança na fronteira.

“Hoje posso dizer, depois de 20 dias seguidos de anúncios, ameaças, guerra psicológica, 20 dias de cerco contra a nação venezuelana, que hoje estamos mais fortes que ontem, mais preparados para defender a paz, a soberania e a integridade territorial do que ontem — muito mais”, afirmou o líder venezuelano.

Presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, aplaude soldados das Forças Especiais durante cerimônia em Caracas, na Venezuela, em 28 de agosto de 2025. — Foto: Presidência da Venezuela via Reuters

Presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, aplaude soldados das Forças Especiais durante cerimônia em Caracas, na Venezuela, em 28 de agosto de 2025. — Foto: Presidência da Venezuela via Reuters

O governo Trump enviou oito embarcações, incluindo sete navios e um submarino nuclear, e o restante deles deve chegar nos próximos dias. A quantidade e tipos de navios de guerra despachados levantam suspeitas sobre um possível ataque ao regime Maduro. Um ataque dos EUA em solo venezuelano teria graves implicações políticas, disse especialista ao g1.

Maduro também elogiou na quinta-feira o presidente colombiano, Gustavo Petro, pelo envio de 25 mil soldados para reforçar a segurança na região de Catatumbo, uma área estratégica na fronteira compartilhada entre os dois países.

Presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, aparece de farda militar ao caminhar com integrantes do governo e tropas em Caracas em 28 de agosto de 2025. — Foto: Presidência da Venezuela via REUTERS

Presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, aparece de farda militar ao caminhar com integrantes do governo e tropas em Caracas em 28 de agosto de 2025. — Foto: Presidência da Venezuela via REUTERS

Navios de guerra dos EUA chegam à costa da Venezuela

Navio anfíbio USS San Antonio, integrante do grupo de combate Iwo Jima da Marinha dos Estados Unidos. — Foto: Sargento Nathan Mitchell/Marinha dos Estados Unidos

Navio anfíbio USS San Antonio, integrante do grupo de combate Iwo Jima da Marinha dos Estados Unidos. — Foto: Sargento Nathan Mitchell/Marinha dos Estados Unidos

Navios de guerra dos Estados Unidos chegaram ao sul do Caribe, próximo da costa da Venezuela, disse uma autoridade norte-americana à agência Reuters na quinta-feira (28). Outras embarcações também estão a caminho da região.

Segundo a agência, sete navios de guerra e um submarino nuclear já estão na região ou devem chegar até o início da próxima semana. O governo dos EUA afirma que a operação tem como objetivo combater o tráfico internacional de drogas.

A frota inclui navios como o USS San Antonio, USS Iwo Jima e USS Fort Lauderdale. As embarcações estão transportando 4.500 militares, incluindo 2.200 fuzileiros navais, segundo a Reuters.

A agência disse ainda que o Exército dos EUA também tem feito voos com aviões espiões P-8 na região para coletar informações. No entanto, fontes ouvidas pela Reuters afirmam que a operação está acontecendo exclusivamente em águas internacionais.

Nesta quinta-feira, o embaixador da Venezuela nas Nações Unidas, Samuel Moncada, acusou os Estados Unidos de promover uma campanha terrorista na região. Ele se reuniu com o secretário-geral da ONU, António Guterres, para discutir a operação norte-americana.

“É uma operação massiva de propaganda para justificar o que os especialistas chamam de ação cinética – ou seja, intervenção militar em um país que é soberano e independente e não representa ameaça a ninguém”, disse.

Mais cedo, a porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, foi questionada sobre a operação. Um jornalista perguntou se os EUA avaliavam atacar a Venezuela, após comentar que o aparato militar enviado ao Caribe era maior do que o necessário para ações contra o tráfico de drogas.

“Trump está preparado para usar todos os elementos da força americana para impedir que as drogas inundem nosso país e para levar os responsáveis à Justiça. E, como já disse aqui deste púlpito, o regime de Maduro não é o governo legítimo da Venezuela”, declarou.

O termo em inglês usado por Leavitt, “power”, pode ser traduzido como “força” ou “poder”.

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EUA x Maduro

Donald Trump, presidente dos EUA, e Nicolás Maduro, líder do chavismo na Venezuela — Foto: Kevin Lamarque e Manaure Quintero/Reuters

Donald Trump, presidente dos EUA, e Nicolás Maduro, líder do chavismo na Venezuela — Foto: Kevin Lamarque e Manaure Quintero/Reuters

Maduro é acusado pelos EUA de narcoterrorismo. Ele é apontado pelo governo americano como líder do Cartel de los Soles, grupo classificado recentemente pelos EUA como organização terrorista internacional.

No início de agosto, os EUA dobraram a recompensa por Maduro, estipulando um valor de US$ 50 milhões por informações que levem à prisão ou condenação do venezuelano.

Maduro tem classificado as ações recentes dos Estados Unidos como ameaças. Diante da movimentação militar, ele anunciou a mobilização de 4,5 milhões de milicianos para proteger o território da Venezuela.

“Fuzis e mísseis para a força camponesa! Para defender o território, a soberania e a paz da Venezuela”, proclamou. “Mísseis e fuzis para a classe operária, para defender a nossa pátria!”

A Venezuela também enviou 15 mil militares para a fronteira com a Colômbia após o governo vizinho afirmar que os EUA estavam usando o narcotráfico como uma “desculpa para invasão militar”. Por outro lado, o governo colombiano descarta colaborar com Maduro.

Na terça-feira (26), em um documento enviado à ONU, a Venezuela classificou as ações dos Estados Unidos como “grave ameaça à paz e à segurança regional” e pediu que a ONU monitore a “escalada de ações hostis” e “ameaças” do governo dos EUA.

Enquanto isso, países como Argentina, Equador, Paraguai e Guiana seguiram os Estados Unidos e também declararam o Cartel de los Soles como uma organização terrorista. Trinidad e Tobago, que fica muito próxima da Venezuela, também disse apoiar a ação militar dos EUA.

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