Postos e distribuidoras ampliam margens de lucro com diesel em até 70% com a guerra no Irã

Carro sendo abastecido em posto de combustíveis — Foto: REUTERS/Max Rossi

Carro sendo abastecido em posto de combustíveis — Foto: REUTERS/Max Rossi

Distribuidoras e postos de combustíveis têm aumentado suas margens de lucro mesmo após as medidas anunciadas pelo governo para conter os efeitos do conflito no Oriente Médio e a alta do petróleo.

Nas últimas semanas, o governo anunciou a isenção de impostos federais sobre o diesel, o aumento do imposto de exportação sobre o petróleo, um incentivo financeiro a produtores e importadores (subvenção) e ações para fiscalizar o repasse dessas medidas ao consumidor. (leia mais aqui)

Ainda assim, um levantamento do Instituto Brasileiro de Estudos Políticos e Sociais (Ibeps) mostra que, desde o início da guerra no Irã, em 28 de fevereiro, as margens de lucro dessas empresas aumentaram, em média, mais de 30% em produtos como diesel S-10, diesel S-500 e gasolina comum.

  • O diesel S-500, usado principalmente por veículos mais antigos, teve alta de 71,6% no período.
  • No diesel S-10, usado por veículos mais novos, o aumento foi de 45%.
  • Na gasolina comum, a margem de lucro subiu 32,2%.

Esses percentuais se refere apenas à parcela do preço final que fica com distribuidoras e postosnão ao valor total do combustível pago pelo consumidor.

Veja abaixo:

A análise usa dados do Ministério de Minas e Energia (MME), extraídos do Relatório Mensal do Mercado de Derivados de Petróleo, que detalha a composição dos preços — combustível fóssil, biocombustíveis, tributos e margens de distribuição e revenda — com base em informações da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) e da Esalq/USP.

Veja os vídeos em alta no g1

Veja os vídeos que estão em alta no g1

Veja os vídeos que estão em alta no g1

Diante da disparada recente dos preços, a ANP e outros órgãos do governo federal também passaram a acompanhar se há irregularidades ou práticas abusivas na formação dos preços dos combustíveis. (entenda mais abaixo)

Na comparação com 2021, o aumento das margens de lucro é ainda maior:

  • No diesel S-500, a alta é de 238,8% no período.
  • No diesel S-10, o aumento foi de 111,8%.
  • Na gasolina comum, a margem de lucro subiu 90,7%.

Segundo o economista do Ibeps Eric Gil Dantas, dois fatores explicam a alta das margens ao longo do tempo. “O primeiro foi a alta de preços entre 2021 e 2022, quando os derivados atingiram os maiores valores reais da história do país”, afirma.

Naquele período, a Petrobras adotava o Preço de Paridade de Importação (PPI), política que simulava o preço de importação e trouxe grande volatilidade ao mercado, com fortes reajustes — tanto para cima quanto para baixo.

“Essa tendência de alta, junto com a volatilidade dos preços e a perda de referência para os consumidores, permitiu que as margens crescessem sem serem percebidas. Mas isso não acabou com o período de maior volatilidade: as margens continuaram subindo ao longo de 2023, mesmo com poucos reajustes”, explica o economista.

O segundo fator, diz Dantas, foi a privatização da BR Distribuidora e da Liquigás, as únicas estatais em setores altamente concentrados.

“Com isso, perdeu-se a possibilidade de manter margens mais próximas do aceitável. A BR e a Liquigás tinham grande poder para determinar essas margens e, após serem privatizadas, isso se perdeu”, completa.

Questionada sobre o aumento das margens e se o setor tende a se beneficiar de choques nos preços internacionais do petróleo, a Federação Nacional do Comércio de Combustíveis e Lubrificantes (Fecombustíveis) não respondeu até a publicação desta reportagem.

Já a Associação das Distribuidoras de Combustíveis (Brasilcom) afirmou que “não se manifesta sobre a formação de preços, pois essa é uma questão estratégica de cada associada, sem interferência da entidade.”

Entenda o impacto da alta do petróleo na economia brasileira

Desde o início da guerra entre Estados Unidos e Irã no Oriente Médio, o preço do petróleo ultrapassou US$ 100 por barril, atingindo o maior nível desde fevereiro de 2022, quando começou o conflito entre Rússia e Ucrânia.

A alta recente ocorre porque a guerra envolve países localizados em rotas estratégicas para a produção e o transporte de petróleo e gás. O Irã controla o Estreito de Ormuz, por onde passam cerca de 20% de todo o petróleo consumido no mundo.

O fluxo na região está muito reduzido por conta do conflito. Com a menor oferta mundial de petróleo, os preços disparam no mercado internacional.

O petróleo mais caro eleva também o preço dos derivados. O diesel, combustível fundamental para a logística da economia brasileira, espalha o aumento de custos dos caminhoneiros ao valor dos alimentos, de produtos industriais e de serviços.

Além do transporte, o agronegócio sofre com o custo de operação das máquinas agrícolas e com o encarecimento dos fertilizantes químicos, que representam parte relevante das importações brasileiras vindas do Irã.

Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) indicam que adubos e fertilizantes químicos responderam por 93,5% do total importado pelo Brasil do país do Oriente Médio em janeiro deste ano.

Há impacto também na produção de energia elétrica, especialmente nas termelétricas, que geram energia a partir de combustíveis e costumam ser acionadas em períodos de seca, quando os reservatórios das hidrelétricas ficam mais baixos.