Trump critica ‘grande estupidez’ e ‘fraqueza’ do Reino Unido por ceder soberania de arquipélago no Oceano Índico; entenda

Premiê britânico, Keir Starmer, (à esquerda) e presidente dos EUA, Donald Trump. — Foto: Reuters

Premiê britânico, Keir Starmer, (à esquerda) e presidente dos EUA, Donald Trump. — Foto: Reuters

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, criticou nesta terça-feira (20) o Reino Unido por ceder sua soberania sobre as ilhas Chagos, um arquipélago no Oceano Índico. Segundo Trump, a decisão é uma “grande estupidez” e “um ato de total fraqueza” do governo britânico.

“De forma chocante, nosso “brilhante” aliado da OTAN, o Reino Unido, está atualmente planejando entregar a ilha de Diego Garcia, local de uma base militar vital dos EUA, a Maurício — e fazer isso sem motivo algum. Não há dúvida de que China e Rússia notaram esse ato de total fraqueza. São potências internacionais que só reconhecem FORÇA. (…) O Reino Unido abrir mão de terras extremamente importantes é um ato de GRANDE ESTUPIDEZ e é mais um em uma longa lista de motivos de Segurança Nacional que explicam por que a Groenlândia precisa ser adquirida [pelos EUA]”, afirmou Trump.

As ilhas Chagos possuem uma base militar conjunta dos Estados Unidos com o Reino Unido, localizada na ilha de Diego Garcia, e são um ponto de abastecimento para aeronaves de ambos os países no Oceano Índico. (Leia mais abaixo)

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O governo do Reino Unido defendeu a decisão de ceder o arquipélago pelo viés da segurança nacional. Darren Jones, chefe de gabinete do premiê Keir Starmer, disse que o país “não deveria ficar envergonhado” com a decisão porque o acordo prevê o domínio da base de Diego Garcia no próximo século e representa uma vitória frente à ameaça de perder jurisdição sobre a instalação militar.

“O Reino Unido nunca comprometerá a nossa segurança nacional. Agimos porque a base em Diego Garcia estava sob ameaça após decisões judiciais que enfraqueceram nossa posição e teriam impedido que ela operasse conforme o previsto no futuro. Este acordo garante, por gerações, as operações da base conjunta EUA–Reino Unido em Diego Garcia, com disposições robustas para manter intactas suas capacidades únicas e manter nossos adversários afastados”, disse um porta-voz do governo em comunicado.

Para Trump, no entanto, a cessão de Chagos pelo Reino Unido manda uma mensagem de fraqueza para a China e a Rússia, consideradas pelo Ocidente como os grandes rivais mundiais. O presidente norte-americano usou o caso para voltar a mencionar sua investida contra a Groenlândia, afirmando que apenas os EUA conseguem manter a segurança mundial e que, por isso, precisam anexar a ilha do Ártico.

Ilhas Chagos

Ilhas Chagos, no Oceano Índico. — Foto: Reuters

Ilhas Chagos, no Oceano Índico. — Foto: Reuters

O arquipélago de Chagos é um conjunto de seis atóis com mais de 600 ilhas no Oceano Índico, a 500 km ao sul das Maldivas e no meio do caminho entre a África e a Indonésia.

Assim como as Ilhas Maurício, o território pertencia ao Reino Unido até a década de 1960. O governo britânico separou Chagos de Maurício em 1965, três anos antes de conceder independência à ilha africana —sem as ilhas.

Diego Garcia, uma das ilhas de Chagos, serve como uma base militar fundamental no oceano Índico para os Estados Unidos e o Reino Unido. Operações recentes lançadas a partir de Diego Garcia incluem bombardeios contra alvos houthis no Iêmen em 2024 e 2025, envio de ajuda humanitária a Gaza e ataques contra alvos do Talibã e da Al-Qaeda no Afeganistão em 2001.

Não há habitantes indígenas —frequentemente chamados de chagossianos ou ilois— vivendo nas ilhas de Chagos desde que o Reino Unido deslocou à força cerca de duas mil pessoas para o local, em sua maioria ex-trabalhadores agrícolas, das ilhas no fim da década de 1960 e início da década de 1970 para estabelecer a base de Diego Garcia. Atualmente, cerca de quatro mil pessoas moram nas ilhas.

A China também tem ampliado sua presença na região, incluindo estreitos laços comerciais com Maurício.

Acordo de transferência Reino Unido-Ilhas Maurício

Em 2019, após um pedido da Assembleia Geral da ONU, a Corte Internacional de Justiça emitiu uma decisão não vinculante pedindo que o Reino Unido abrisse mão do controle, afirmando que forçou indevidamente a população a deixar o território para abrir caminho à base.

Com isso e sob crescente pressão internacional, o Reino Unido concordou, em outubro de 2024, em transferir a soberania das ilhas Chagos para Maurício, uma ex-colônia que conquistou a independência em 1968. O acordo, no entanto, foi criticado internamente por parlamentares e por cidadãos britânicos nascidos em Diego Garcia.

Em maio de 2025, o Reino Unido afirmou que pagaria às Ilhas Maurício 101 milhões de libras (cerca de US$ 732 milhões) por ano, um valor calculado em 3,4 bilhões de libras (R$ 24,6 bi) ao longo da vigência do acordo, para garantir o futuro da base militar de Diego Garcia por meio de um arrendamento de 99 anos.

Na época, os Estados Unidos disseram “acolher o acordo histórico”, elogiando a visão dos líderes de ambos os países. Em fevereiro de 2025, antes da assinatura, Trump também expressou apoio preliminar ao acordo. Canadá, Austrália, Nova Zelândia e Índia também apoiaram o acordo.

No entanto, ainda em fevereiro de 2025, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, levantou preocupações em sobre possíveis ameaças à segurança americana, especialmente diante da influência da China na região.

O primeiro-ministro de Maurício, Navin Ramgoolam, eleito após o acordo inicial, também questionou o acordo ao assumir o cargo. Ramgoolam queria que Trump analisasse o plano e dissesse se se tratava de um bom arranjo.

Alguns chagossianos, muitos dos quais acabaram vivendo no Reino Unido após serem removidos do arquipélago, protestaram contra o acordo sob o argumento de que não foram consultados.

Kemi Badenoch, líder da oposição no Reino Unido, disse na terça-feira, no X, que o acordo foi um “completo ato de autossabotagem” que tornou “nós e nossos aliados da Otan mais fracos”.