‘Trump se envolveu em atividades criminosas’: o depoimento do procurador que investigou o presidente dos EUA

O procurador e ex-conselheiro especial do Departamento de Justiça dos EUA Jack Smith durante depoimento em comissão da Câmara dos Deputados, em 22 de janeiro de 2026. — Foto: Kevin Lamarque/ Reuters

O procurador e ex-conselheiro especial do Departamento de Justiça dos EUA Jack Smith durante depoimento em comissão da Câmara dos Deputados, em 22 de janeiro de 2026. — Foto: Kevin Lamarque/ Reuters

Alvo frequente de críticas de apoiadores de Donald Trump, o procurador norte-americano Jack Smith, que conduziu investigações criminais contra Trump, acusou o presidente dos EUA de querer estar acima da lei e reafirmou que, “sem dúvidas”, o presidente dos EUA se envolveu em investigações criminosas.

Smith prestou depoimento a uma comissão especial da Câmara dos Deputados dos EUA na quinta-feira (22) para explicar as acusações criminais que fez contra Trump. O presidente dos EUA retrucou, chamando Smith de “animal desvairado” e pedindo uma investigação contra ele.

➡️ Também ex-conselheiro especial do Departamento de Justiça dos Estados Unidos, conduziu investigações sobre Donald Trump durante a campanha eleitoral de 2024, ano em que Trump se elegeu novamente presidente dos EUA.

Com as evidências, o procurador acusou formalmente Trump de conspirar para anular a eleição presidencial de 2020, em que foi derrotado pelo democrata Joe Biden, e de acumular documentos confidenciais em sua residência em Mar-a-Lago, na Flórida, depois de deixar a Casa Branca.

Na sessão de quinta, Smith defendeu suas investigações e insistiu que agiu sem levar em consideração a política. O ex-conselheiro disse ainda que não se arrependeu das acusações criminais que apresentou.

“Nossa investigação reuniu provas que não deixaram dúvidas que o presidente Trump se envolveu em atividades criminosas”, declarou Smith. “Se me perguntassem hoje se eu processaria um ex-presidente com base nos mesmos fatos, eu o faria, independentemente de ser republicano ou democrata”.

“Ninguém deve estar acima da lei em nosso país, e a lei exigia que ele fosse responsabilizado. Então foi isso que fiz”, justificou ainda Smith na Câmara dos Deputados norte-americana.

Sob interrogatório, Smith disse ainda que:

  • Houve uma conspiração abrangente para anular os resultados da eleição;
  • Donald Trump se recusou a ouvir assessores que lhe disseram que a eleição, na verdade, não havia sido fraudada;
  • Trump tentou silenciar e intimidar potenciais testemunhas contra ele, após ser formalmente acusado.

“Algumas das testemunhas mais importantes eram, na verdade, colegas republicanos que votaram em Donald Trump, que fizeram campanha para ele e que queriam que ele vencesse a eleição”, disse o ex-conselheiro.

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A audiência, que durou quatro horas, se dividiu em linhas partidárias: de um lado, parlamentares republicanos criticaram o procurador. De outro, democratas tentavam obter depoimentos prejudiciais sobre a conduta de Trump e acusavam seus colegas republicanos de tentar reescrever a história.

“Sempre foi uma questão política”, disse o deputado Jim Jordan, de Ohio, presidente republicano do comitê. “Talvez para eles”, retrucou o deputado democrata Jamie Raskin, referindo-se aos republicanos. “Mas, para nós, tudo se resume ao Estado de Direito.”

O procurador já havia testemunhado a portas fechadas no mês passado, mas retornou ao Comitê Judiciário da Câmara para uma audiência pública para se dirigir ao Congresso e ao país em geral sobre a investigação que conduziu durante a campanha eleitoral, que gerou polêmica à época.

Trump pede investigação contra Smith

Enquanto a audiência ocorria, o próprio Trump, que retornava do Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, criticou Smith. Em sua rede social Truth Social, acusou o procurador de perjúrio e disse que “o desequilibrado Jack Smith deveria ser processado por seus atos”.

Desde o início das investigações, os republicanos retratam Smith como um promotor excessivamente agressivo e incisivo, que precisou ser “contido” por seus superiores e pelos tribunais durante a investigação de Trump.

Eles acusaram a equipe de Smith de intimar um grupo de parlamentares republicanos a apresentar seus registros telefônicos. De fato, registros revelaram ligações da equipe de Smith aos republicanos, mas não o conteúdo das comunicações. Ainda assim, o deputado Brandon Gill, republicano do Texas, afirmou que o episódio demonstrou como Smith “desrespeitou a Constituição”.

“Meu escritório não espionou ninguém”, disse Smith, explicando que coletar registros telefônicos é uma tática comum da Promotoria e que foi essencial neste caso para ajudar os promotores a entender a extensão da conspiração.

👉 Smith foi nomeado em 2022 pelo Departamento de Justiça de Joe Biden para supervisionar as investigações contra Trump, que nega qualquer irregularidade.

Após Trump vencer as eleições, Smith e sua equipe abandonaram as investigações, devido a pareceres jurídicos de longa data do Departamento de Justiça que afirmam que presidentes em exercício não podem ser indiciados.

A audiência de quinta-feira ocorreu ainda em meio a uma nova onda de críticas do governo Trump contra os promotores e procuradores que conduziram investigações contra o presidente e em meio a preocupações, por parte da oposição, de que a independência do Departamento de Justiça esteja se deteriorando sob a influência do presidente.

Em referência a essas preocupações, Smith disse:

“Acredito que, se não submetermos as pessoas mais poderosas da nossa sociedade aos mesmos padrões — o Estado de Direito —, isso pode ser catastrófico porque, se nós não seguirmos as leis, as pessoas comuns também acreditarão que não precisam seguir as leis”.