Ataque hacker de US$6,3 bi à Binance: como funciona o seguro de criptomoedas
Hackers roubam US$ 6,3 bilhões da Binance, maior corretora de criptomoedas do mundo
A proteção, no entanto, não é igual para todas as empresas.
A possibilidade de receber uma indenização depende de fatores como a forma de armazenamento das criptomoedas, o método utilizado pelos hackers para invadir os sistemas e as condições previstas no contrato de seguro.
A regulamentação limitada e a forte oscilação dos preços das criptomoedas também fazem com que as seguradoras tenham cautela ao oferecer esse tipo de proteção.
Apesar do aumento da procura por seguros contra roubos de ativos digitais e processos judiciais contra executivos, a cobertura ainda é um mercado de nicho, atendido principalmente por seguradoras especializadas.
O que é o seguro de ativos digitais?
O seguro de ativos digitais reúne diferentes tipos de apólices que protegem corretoras de criptomoedas, empresas responsáveis pela guarda desses ativos e outros negócios do setor contra prejuízos causados por roubos, ataques cibernéticos, falhas tecnológicas e outros riscos.
Esses seguros são adaptados às características das criptomoedas e da tecnologia blockchain, sistema que registra e valida as transações digitais.
A cobertura pode incluir, por exemplo, o roubo ou a perda de chaves privadas — códigos que permitem acessar e movimentar criptomoedas —, invasões de carteiras digitais, falhas em contratos inteligentes e problemas na guarda dos ativos.
Segundo a consultoria Data Bridge Market Research, o mercado global de seguros de criptomoedas movimentou US$ 9,37 bilhões em 2025. A previsão é que esse valor chegue a US$ 184,98 bilhões até 2033.
Entre os fatores que impulsionam esse crescimento estão a maior participação de instituições no mercado de criptomoedas e o aumento dos ataques e roubos, segundo a empresa de pesquisa.
A proteção pode envolver diferentes modalidades de seguro:
- Seguro contra crimes: cobre situações como roubos, golpes e fraudes que envolvem manipulação de pessoas para obter acesso a sistemas ou informações.
- Seguro contra violações de segurança: protege contra invasões, vazamentos e possíveis consequências regulatórias.
- Seguro contra erros e omissões: cobre prejuízos relacionados a erros de software e falhas em contratos inteligentes, programas que executam automaticamente operações quando determinadas condições são atendidas.
- Seguro para executivos: oferece proteção em casos de processos judiciais contra dirigentes das empresas.
- Seguro de responsabilidade tecnológica: cobre riscos relacionados aos serviços prestados por empresas de infraestrutura tecnológica.
Como os prejuízos são cobertos?
Quando uma corretora de criptomoedas sofre um ataque, os prejuízos podem ser pagos com uma combinação de indenizações do seguro, recursos próprios da empresa e fundos de emergência destinados a reembolsar os clientes.
O valor que a seguradora pode pagar depende das condições do contrato, incluindo o limite máximo de indenização, a franquia — quantia que fica sob responsabilidade da empresa segurada — e as situações que não estão cobertas.
Se o prejuízo ultrapassar o limite previsto na apólice, a corretora precisa recorrer aos próprios recursos ou a outros mecanismos de recuperação para cumprir suas obrigações com os clientes.
Algumas empresas também mantêm reservas financeiras específicas para situações de emergência. É o caso da Binance, que criou, em julho de 2018, o Fundo de Ativos Seguros para Usuários (SAFU, na sigla em inglês).
A reserva foi criada para proteger os clientes em situações extremas, como invasões e outros problemas de segurança na plataforma.
Em 2026, o fundo reunia aproximadamente US$ 1 bilhão em ativos digitais, integralmente em bitcoin, segundo informações do site da própria Binance.
A empresa não respondeu imediatamente ao pedido de comentário da Reuters sobre sua cobertura de seguro.
O que pode impedir o pagamento do seguro?
Mesmo quando uma empresa contrata um seguro, isso não significa que todos os prejuízos serão reembolsados.
Os contratos costumam ter exclusões, ou seja, situações específicas em que a seguradora pode negar o pagamento da indenização.
Essas restrições são comuns tanto nos seguros de ativos digitais quanto nas apólices que protegem diretores e executivos de empresas de criptomoedas.
Entre as exclusões mais frequentes estão as perdas causadas pela oscilação do preço dos ativos, fraudes cometidas pelo próprio segurado e falhas ou negligência na proteção das chaves privadas.
Por isso, é importante que as empresas entendam exatamente quais situações estão cobertas e quais ficam de fora do contrato.
“As empresas de ativos digitais e, cada vez mais, seus clientes institucionais precisam entender exatamente o que está coberto, onde se aplicam as exclusões e os sublimites e quais riscos são retidos”, disse Jacqueline Quintal, líder do setor de instituições financeiras e ativos digitais da Marsh, à Reuters.
Ela também destacou que a proteção financeira não depende apenas da contratação de um seguro.
“Dada a possível lacuna entre a perda provável/possível e a capacidade de seguro disponível, a tecnologia e os controles de segurança, uma governança sólida e solidez financeira são igualmente importantes para a resiliência”, afirmou.
Outro obstáculo é que os seguros tradicionais contra crimes geralmente não cobrem perdas de criptomoedas. Isso acontece porque essas apólices foram criadas originalmente para proteger bens físicos e financeiros convencionais, como dinheiro, títulos e metais preciosos.
Os seguros tradicionais contra riscos digitais também nem sempre garantem o reembolso do valor das criptomoedas roubadas em ataques eletrônicos.
Embora possam cobrir despesas relacionadas ao incidente — como investigações técnicas, avisos aos clientes e custos com advogados —, essas apólices geralmente excluem perdas decorrentes do roubo ou da transferência de fundos.
Por isso, os seguros específicos para riscos digitais não costumam cobrir automaticamente o valor integral das criptomoedas roubadas. Para isso, é necessário contratar uma proteção adicional voltada a esses ativos.
Como as seguradoras avaliam os roubos de criptomoedas?
Para decidir se uma empresa tem direito à indenização, as seguradoras investigam como ocorreu o ataque, quais sistemas foram comprometidos e se os prejuízos estão previstos no contrato.
Também verificam se a corretora cumpria os procedimentos de segurança exigidos pela apólice. Entre os pontos analisados estão a proteção das chaves privadas, o controle de acesso às carteiras digitais e os processos de autorização das transações.
A forma como o roubo aconteceu pode fazer diferença na decisão sobre o pagamento.
Um ataque externo, em que hackers conseguem roubar credenciais de acesso, por exemplo, pode ser enquadrado de maneira diferente de uma situação em que um funcionário transfere os ativos de propósito.
Essa distinção pode determinar se o prejuízo será analisado por uma apólice de seguro contra crimes ou por um seguro cibernético.
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Logo da Binance. — Foto: Unsplash/Kanchanara
Logo da Binance. — Foto: Unsplash/Kanchanara


