China tenta reduzir dependência de alimentos importados; o que isso significa para o agro brasileiro
Segurança alimentar: um desafio de estratégia e sobrevivência entre EUA e China
“A tigela de arroz do povo chinês tem que estar firme nas próprias mãos, cheia principalmente de comida chinesa.”
A frase, repetida há mais de uma década pelo presidente Xi Jinping, resume a estratégia que vem orientando a política de segurança alimentar da China: produzir mais alimentos internamente e depender menos das importações.
Esse objetivo aparece nas metas estabelecidas pelo governo chinês em seu 15º Plano Quinquenal, publicado no início do ano para o período de 2026 a 2030.
- 🔎 O Plano Quinquenal reúne as principais metas estratégicas da China para períodos de cinco anos, com objetivos de desenvolvimento econômico e social. Nesta edição, o documento prevê ampliar a produção interna de produtos dos quais o Brasil é hoje um dos principais fornecedores, como soja, milho e carne. (saiba mais abaixo)
Mas como fica o Brasil diante dessa nova estratégia? Especialistas ouvidos pelo g1 avaliam que o cenário não aponta para uma ruptura nem para uma queda drástica das importações chinesas, mas já exige adaptação por parte das empresas brasileiras.
“O jogo dos próximos anos não é vender mais tonelada, é vender a melhor tonelada. Isso significa agregar valor, sair da commodity pura para corte premium, produto processado e marca. E diversificar destinos, para não ficar refém de um comprador só”, afirma Theo Paul Santana, fundador da consultoria Destino China, que facilita negócios com o país asiático.
“Continuaremos importantes por um motivo que a própria China reconhece: ela pode fazer maravilhas em engenharia, mas ainda não dá para inventar terra e água”, acrescenta.
Embora tenha um território maior que o do Brasil, a China dispõe de uma parcela limitada de terras aptas à agricultura. Boa parte do país é formada por regiões montanhosas, áridas ou desérticas. Além disso, concentra menos de 5% da água doce disponível no planeta.
Por isso, os planos da China devem avançar principalmente por meio do aumento da produtividade — ou seja, produzir mais na mesma área com o apoio de tecnologias, como melhoramento genético de sementes e maquinário mais avançado.
Larissa Wachholz, ex-assessora especial do Ministério da Agricultura e sócia da Vallya Associados, afirma que, embora a China esteja longe de se tornar 100% autossuficiente, não se deve subestimar sua capacidade de cumprir as metas que estabelece.
“Acompanho a política pública chinesa há anos e vejo que, quando a China se compromete a fazer algo e coloca seus esforços de tecnologia, educação e recurso financeiro em prol disso, ela consegue ter resultado consistente”, diz.
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O que prevê o plano chinês de segurança alimentar
Dentre as diversas frentes do plano chinês, alguns pontos destacados pelos especialistas são:
- mais grãos: elevar a capacidade de produção anual para 725 milhões de toneladas até 2030. No ano passado, a China colheu um pouco menos que 715 milhões de toneladas.
- mais tecnologia no campo: aumentar de 64% para 67% a contribuição da ciência e da tecnologia para o desenvolvimento agrícola;
- menos dependência da soja importada: reduzir a participação do farelo de soja na ração animal de cerca de 14% para menos de 10% até 2030;
- mais autossuficiência: produzir ao menos 95% dos grãos básicos, como arroz e trigo, dentro da China; alcançar 85% de autossuficiência em carne bovina e ovina e de 70% em leite.
Theo Santana afirma que a China já atingiu a meta de autossuficiência em grãos básicos, como arroz e trigo, e que a produção desses alimentos já supera em mais de 100% a demanda interna, segundo dados do Escritório Nacional de Estatística do governo chinês, levantados por ele.
No entanto, o país ainda está abaixo das metas para outros alimentos. No caso das carnes bovina e ovina, o país consegue suprir 70% da demanda interna. Já na produção de leite, esse percentual é de 62%.
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Pessoas são vistas andando em meio a uma plantação de arroz em Yuanyang, na China. — Foto: AP/Liang Zhiqiang/Xinhua
Pessoas são vistas andando em meio a uma plantação de arroz em Yuanyang, na China. — Foto: AP/Liang Zhiqiang/Xinhua
Como a estratégia chinesa atinge o Brasil
O consultor Theo Paul Santana destaca que o foco da estratégia chinesa está, principalmente, nos grãos destinados à alimentação da população, produtos que o Brasil praticamente não exporta para o país.
“O que o Brasil vende é justamente aquilo em que a China não consegue ser autossuficiente: soja e carne”, diz.
No ano passado, a China importou um volume recorde de quase 112 milhões de toneladas de soja, e mais de 70% desse total teve origem no Brasil. A produção chinesa responde por apenas cerca de 20% da demanda do país.
A China, no entanto, se sente “desconfortável” com essa dependência, afirma Larissa Wachholz. Por isso, o país vem intensificando os investimentos em tecnologia e melhoramento genético, inclusive em sementes transgênicas, tema que, até pouco tempo atrás, era tratado como “tabu” no país. O objetivo é aumentar a produção sem ampliar a área plantada nem o consumo de água.
No mercado de grãos, o Brasil já sentiu o impacto nas exportações de milho. No ano passado, a China teve uma safra recorde e reduziu as importações do cereal de 8,4 milhões de toneladas em 2024 para menos de 4 milhões em 2025.
Como resultado, o valor das exportações brasileiras de milho para a China caiu 20,8% no ano passado, segundo dados do Ministério da Agricultura.
Em janeiro, a China estabeleceu uma sobretaxa de 55% sobre as importações de carne brasileira que ultrapassarem 1,1 milhão de toneladas. Em julho, esse limite que já foi batido, segundo levantamento do consultor Fernando Enrique Iglesias, do Safras & Mercado.
“A cota nasceu de uma investigação de salvaguarda, e o próprio Ministério do Comércio chinês foi explícito ao justificá-la: a carne importada estava prejudicando a indústria doméstica, e a medida serviria para estabilizar o rebanho e dar tempo aos produtores chineses de se reorganizar”, afirma Santana.
Mas, para o especialista, essa política vai encontrar um teto. “A China produz cerca de 7,8 milhões de toneladas de carne bovina e consome perto de 11 ou 12 milhões. Esse buraco é estrutural, e a OCDE projeta que ele chegue perto de 4 milhões de toneladas por ano até 2032”, diz Santana.
“Ou seja, a cota administra o ritmo da importação e protege o pecuarista local, mas não elimina a dependência. É um escudo temporário, não uma porta que fecha”.
O que o Brasil deve fazer?
Uma das saídas é diversificar destinos de exportação. “Só em 2025, o Brasil abriu mais de 200 novos mercados, sendo quase 20 deles para carne bovina”, diz Santana.
Contudo, não vai ser fácil substituir parte do mercado chinês, que compra metade de tudo o que o Brasil exporta de carne bovina.
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Valor exportado de carne bovina em 2025; total e para os 5 maiores destinos. — Foto: Arte/g1
Valor exportado de carne bovina em 2025; total e para os 5 maiores destinos. — Foto: Arte/g1
Outra frente é ampliar a presença das empresas brasileiras na China para acompanhar mais de perto as mudanças regulatórias, tecnológicas e comerciais.
Segundo Larissa Wachholz, a presença do setor privado brasileiro no país ainda está aquém da importância que esse mercado tem para o agronegócio nacional.
A especialista diz que o Brasil pode ainda criar novas oportunidades, como na área de produção de combustíveis sustentáveis para aviação (SAF) e para o transporte marítimo, setores que devem ampliar a demanda por matérias-primas agrícolas nos próximos anos.
Nesse cenário, soja e milho podem ganhar novos mercados de maior valor agregado, reduzindo a dependência da exportação de grãos.
Por fim, os especialistas reforçam que a nova estratégia da China está longe de provocar uma ruptura entre os dois países.
“Tem um sinal que vale mais que discurso: os chineses estão investindo no Brasil para garantir abastecimento de alimentos. A COFCO ampliou terminal no Porto de Santos, comprou locomotivas e vagões, e há um memorando para estudar a ferrovia bioceânica ligando o Centro-Oeste ao Pacífico”, diz Santana.
“Ninguém investe em logística de longo prazo num fornecedor que pretende abandonar. O comércio agrícola entre os dois países já bate a casa dos US$ 100 bilhões por ano. O que muda é a exigência, não a importância”, conclui.


