Órgão do Senado projeta rombo de R$ 86 bilhões em 2027, contraria governo e prevê necessidade de bloqueio para cumprir meta

A Instituição Fiscal Independente (IFI), órgão ligado ao Senado, projetou nesta quinta-feira (17), para o próximo ano, um déficit nas contas do governo da ordem de R$ 86,1 bilhões.

A estimativa, que consta no Relatório de Acompanhamento Fiscal de setembro, diverge da estimativa oficial do governo. Na proposta de orçamento do próximo ano, enviada ao Congresso Nacional no fim de agosto, o Executivo prevê um saldo positivo de R$ 18,6 bilhões.

▶️A diferença entre as duas projeções é de R$ 104,8 bilhões.

O projeto de orçamento para o próximo ano ainda não foi analisado pelo Congresso Nacional. A expectativa é de que o texto seja avaliado pelo Legislativo somente após o período eleitoral. Normalmente, o orçamento é votado somente em dezembro de cada ano.

Possível descumprimento da meta fiscal

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▶️Para o próximo ano, a meta proposta pelo governo no orçamento é de um resultado positivo de R$ 73,2 bilhões em 2027, o equivalente a 0,5% do PIB.

  • Mas, pelas regras do arcabouço fiscal, a norma para as contas públicas, entretanto, as contas poderão continuar no vermelho sem descumprimento da lei.
  • Isso porque há uma banda de tolerância de 0,25 ponto percentual para cima ou para baixo; ou seja, o piso da banda é de um saldo positivo de R$ 36,6 bilhões.
  • Além disso, R$ 64,7 bilhões em gastos do governo com precatórios — sentenças judiciais — e com projetos na área de defesa, saúde e educação podem ficar de fora da regra — exceções ao limite de gastos aprovados pelo Congresso nos últimos anos.

▶️Na prática, portanto, o governo vai poder ter um déficit primário de até R$ 28,1 bilhões sem que a meta seja formalmente descumprida.

▶️ Caso se confirme o resultado projetado pela IFI, de um rombo de R$ 86,1 bilhões em 2027, a meta fiscal seria descumprida sem medidas adicionais de contenção de despesas.

“Nessa situação, a IFI aponta a necessidade de contingenciamento [bloqueio de gastos] de R$ 35,7 bilhões para o cumprimento da meta no próximo ano. Isso, sem levar em conta a nova despesa com o aporte de R$ 33,8 bilhões ao Fundo de Compensação aos Estados pela substituição do IPI pelo Imposto Seletivo, previsto na reforma tributária. Embora esta despesa não seja computada no teto de gastos, afeta o cumprimento da meta de resultado primário”, diz a IFI.

Diferença entre as projeções

De acordo com o relatório da IFI, divulgado nesta quinta-feira, um dos motivos para divergência entre as estimativas está na projeção para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) em 2027.

Como a área econômica do governo prevê uma expansão maior, estima que poderá contar com mais receitas também, algo não projetado pela IFI.

“Onde reside a divergência? Primeiro, nos parâmetros macroeconômicos. O PLOA [projeto de lei orçamentária] 2027 ancora-se em uma projeção de expansão do PIB de 2,5%, a IFI projeta um crescimento de 1,8% e o Boletim Focus [mercado financeiro], 1,5%. Isso tem profundas implicações no dimensionamento das receitas públicas: mais ou menos crescimento econômico, mais ou menos recursos disponíveis para financiar a máquina e as políticas públicas”, diz o órgão do Senado Federal.

  • Outra discordância refere-se à projeção da massa salarial, um fator importante no cálculo da receita previdenciária. O governo estima um crescimento de 10,1% em 2027, enquanto a IFI projeta uma alta menor, de 7,3%.
  • Uma incerteza adicional, diz a IFI, é a receita de R$ 42 bilhões indicada pelo governo, como fonte condicionada, relativa ao Imposto Seletivo (imposto do pecado), a ser criado por lei ordinária específica, cujo projeto sequer foi enviado ao Congresso Nacional.
  • O órgão do Senado projeta, entretanto, que as receitas derivadas da exploração de recursos naturais e dos dividendos repassados ao Tesouro Nacional pelas empresas estatais serão melhores do que os estimados pelo governo federal.

Na projeção de despesas, por sua vez, a Instituição Fiscal Independente aponta discrepâncias nas estimativas dos gastos previdenciários, nas despesas com o BPC, abono salarial, seguro-desemprego e sentenças judiciais.

“A IFI acredita que os números da proposta orçamentária estão relativamente otimistas. De sua parte, o governo confia em sua estratégia de revisão de gastos (spending reviews)”, acrescentou o órgão.

Dívida pública em alta

▶️Por fim, a Instituição Fiscal Independente, do Senado Federal, conclui que é possível o cumprimento da meta fiscal em 2027 “desde que as atuais premissas macroeconômicas se confirmem” e que os bloqueios de gastos necessários sejam implementados.

▶️Acrescenta, porém, que ainda assim a “realidade estará muito distante do resultado fiscal para estabilizar a relação entre dívida pública e o PIB” – ou seja, conter o seu crescimento.

🔎Atualmente em 82,5% do PIB, patamar elevado na comparação com outros países emergentes, a dívida brasileira é apontada por analistas como um fator que pressiona para cima a taxa de juros e contém o crescimento da economia brasileira.

▶️Analistas avaliam que os reiterados déficits fiscais dos últimos anos pressionam a taxa de juros e, consequentemente, o endividamento público. Para baixar o juro e conter a dívida, cobram um ajuste fiscal mais forte por parte do governo, principalmente pelo lado do corte de despesas.

“A persistência de juros elevados não pode ser atribuída apenas à condução da política monetária [juros altos, fixados pelo BC], já que o prêmio de risco concentra a maior parte da volatilidade, associado de forma significativa à posição fiscal do país [contas desequilibradas]. Ficamos prisioneiros do círculo vicioso envolvendo desequilíbrio fiscal e juros altos, que se retroalimentam”, conclui a IFI.