Starlink tem uma ‘irmã militar’ controlada pelos EUA; entenda o que é a Starshield

Em imagem de arquivo, soldado ucrnaiano prepara sistema de internet por satélite da Starlink em sua posição na frente de batalha na cidade de Avdiivka, na Ucrânia, em fevereiro de 2024. — Foto: Inna Varenytsia/ Reuters

Em imagem de arquivo, soldado ucrnaiano prepara sistema de internet por satélite da Starlink em sua posição na frente de batalha na cidade de Avdiivka, na Ucrânia, em fevereiro de 2024. — Foto: Inna Varenytsia/ Reuters

A queixa da Ucrânia de que a SpaceX, de Elon Musk, teria restringido os serviços Starlink de “nível militar” voltou a chamar a atenção para as diferenças entre o Starlink, serviço comercial de internet via satélite da empresa, e o Starshield, versão militar desenvolvida para o Pentágono.

“Os sistemas Starshield são propriedade e estão sob controle do governo dos Estados Unidos”, escreveu Musk nesta quarta-feira (14/10) numa postagem no X, acrescentando que quaisquer limites de velocidade ou de uso são decididos pelos militares ou pelo presidente dos EUA.

Já “o Starlink é um serviço comercial pertencente e controlado pela SpaceX. Seu uso está limitado a atividades civis ou defensivas e não pode ser empregado em ações militares ofensivas, pois isso seria inadequado para uma empresa comercial”.

Starlink e Starshield não são sistemas completamente separados, mas também não são a mesma coisa:

  • O Starlink é o serviço civil de internet administrado pela própria SpaceX.
  • O Starshield é a versão governamental e conta com alguns satélites próprios para reconhecimento e comunicação militar, além de oferecer criptografia mais robusta.

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Ambos, porém, operam com a mesma tecnologia e, em parte, utilizam os mesmos satélites.

O que é o Starlink?

Principal fonte de lucro da SpaceX, o Starlink é um serviço que utiliza satélites em órbita baixa da Terra para fornecer acesso à internet, principalmente em áreas remotas.

Trata-se de uma rede composta por mais de 11 mil satélites que fornecem internet de alta velocidade diretamente aos equipamentos dos usuários. Seus cerca de 13 milhões de assinantes incluem moradores, excursionistas, empresas de navegação e grandes companhias aéreas.

Desde o lançamento dos primeiros satélites Starlink, em 2019, a bordo dos foguetes reutilizáveis da SpaceX, a empresa formou uma vasta rede em órbita baixa que cobre grande parte do planeta.

O sistema oferece conexões mais rápidas do que as fornecidas por satélites de comunicação tradicionais, que normalmente ficam muito mais distantes da Terra e existem em número bem menor.

A internet via satélite é relativamente fácil de usar, e a velocidade da conexão chama a atenção. Os satélites do Starlink orbitam a Terra entre 328 e 614 quilômetros de altitude, uma distância significativamente menor do que a dos satélites dos concorrentes.

O que é o Starshield?

Starshield é a unidade de negócios da SpaceX que desenvolve sistemas de satélites para uso militar e de inteligência por governos e forças armadas. Seus principais clientes são órgãos dos EUA, como o Departamento de Defesa (Pentágono), a Space Force e o National Reconnaissance Office (NRO), responsável pelos satélites de reconhecimento do país.

Equipamento da Starlink, empresa de Elon Musk, exposta na Agrishow 2023 em Ribeirão Preto, SP — Foto: Érico Andrade/g1

Equipamento da Starlink, empresa de Elon Musk, exposta na Agrishow 2023 em Ribeirão Preto, SP — Foto: Érico Andrade/g1

Os serviços de comunicação segura do Starshield utilizam sistemas avançados de proteção de dados e equipamentos próprios, mas têm como base os satélites do Starlink. Além disso, a empresa afirma que o sistema militar permite observar a Terra e incorporar sensores ou outros equipamentos aos satélites.

O principal cliente é o Pentágono, que gastou bilhões de dólares em serviços do Starlink e do Starshield. Também adquiriu satélites Starshield, incluindo equipamentos de comunicação destinados a detectar antecipadamente possíveis ataques com mísseis, além de uma rede de satélites de espionagem para o NRO, segundo informou a Reuters em 2024.

Mesmo hardware, usos diferentes

O sistema Starshield utiliza a rede Starlink para transmitir dados e também conta com satélites próprios. As informações do Starshield podem passar pelos satélites convencionais da Starlink, mas recebem uma camada adicional de criptografia e são mantidas separadas dos dados dos usuários civis.

Para missões de reconhecimento e comunicação militar, há satélites Starshield exclusivos, que não podem ser acessados por clientes civis. Em solo, o sistema também conta com equipamentos próprios para conexão via satélite.

No entanto, terminais Starlink podem ser adaptados para uso do Starshield, como ocorreu na Ucrânia.

Dúvidas sobre a relação entre Starlink e Starshield persistem desde que a Rússia ameaçou, em 2022, satélites ocidentais usados no apoio à Ucrânia.

A SpaceX apresentou o Starshield no final daquele ano, mas o sigilo em torno de programas espaciais ligados à segurança nacional dos EUA tornou difícil determinar com precisão onde termina um sistema e começa o outro.

Essas diferenças tornaram-se motivo de disputa no início deste ano, quando Pentágono e SpaceX entraram em conflito por causa dos preços mais altos dos serviços de satélite utilizados por drones militares durante o conflito com o Irã, segundo a Reuters.

A SpaceX argumentou que alguns clientes, que pagavam cerca de 5 mil dólares por um terminal Starlink, deveriam utilizar o Starshield, a um custo de aproximadamente 25 mil dólares por terminal.

Starlink na Ucrânia

Em 24 de fevereiro de 2022, logo no início da invasão russa, um ataque cibernético atribuído à Rússia tirou do ar a rede de satélites KA-SAT, operada pela empresa americana Viasat. Com isso, as Forças Armadas ucranianas perderam um importante canal de comunicação.

A ajuda aos ucranianos veio do espaço: dias depois, o então ministro da Defesa da Ucrânia, Mykhailo Fedorov, pediu a Musk, pelo Twitter (hoje X), que liberasse o serviço da Starlink no país. Musk respondeu pela mesma rede social: “O serviço Starlink está agora ativo, mais terminais estão a caminho”.

Os serviços oferecidos pela SpaceX acabaram se tornando a espinha dorsal das comunicações da Ucrânia na linha de frente. Os terminais de internet via satélite da empresa de Musk são essenciais para orientar ataques com drones ucranianos de longo alcance nas regiões do sul e do leste do país ocupadas pela Rússia. Essas operações têm causado sérios danos à logística russa.

A Ucrânia recebeu mais de 50 mil terminais Starlink de seus parceiros. A maioria deles, 29.500, é custeada pela Polônia, que paga cerca de 50 milhões de dólares por ano pelas assinaturas do serviço, segundo o ministro do Exterior, Radoslaw Sikorski.

Nas regiões do leste da Ucrânia, onde boa parte da infraestrutura foi destruída, a Starlink é o principal meio de acesso à internet para civis e militares.

Além disso, em 2023, os Estados Unidos, por meio do US European Command, financiaram 500 terminais Starshield por aproximadamente 40 milhões de dólares. Em agosto de 2024, um novo contrato do Space Systems Command ampliou o acesso ao Starshield para 2.500 terminais Starlink que já estavam em uso no país.

Isso ajuda a explicar a confusão entre Starlink e Starshield nas declarações das autoridades ucranianas. Muitas vezes, o equipamento visível no campo de batalha é a antena plana da Starlink. A conexão, porém, pode estar vinculada a outro contrato, com um nível diferente de proteção dos dados e regras próprias.

Os soldados continuam chamando o sistema de Starlink, embora, nesses casos, o serviço seja o Starshield.