Fed mantém juros dos EUA na faixa de 3,75% a 4% ao ano a poucos dias das eleições para o Congresso

Prédio do Federal Reserve dos EUA em Washington, EUA (maio/2020) — Foto: Kevin Lamarque / Reuters

Prédio do Federal Reserve dos EUA em Washington, EUA (maio/2020) — Foto: Kevin Lamarque / Reuters

O Federal Reserve (Fed), banco central dos Estados Unidos, manteve a taxa de juros do país inalterada na faixa de 3,75% a 4% ao ano — maior nível desde outubro de 2025. A decisão, anunciada nesta quarta-feira (28), veio em linha com as expectativas do mercado financeiro.

Em comunicado, o Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc) afirmou que a atividade econômica dos EUA segue se expandindo em ritmo forte e que “os gastos domésticos têm se mostrado resilientes”, embora a incerteza permaneça elevada, “em parte, devido a acontecimentos geopolíticos”.

Segundo o comitê, a decisão de manter a taxa básica de juros dos EUA leva em conta o duplo mandato do Fed: controlar a inflação e promover o máximo emprego. O colegiado destacou ainda que novos dados econômicos ajudarão a orientar as próximas decisões.

➡️ A política de juros nos EUA tem reflexos no Brasil. Com as taxas em nível historicamente elevado, cresce a pressão para que a Selic, taxa básica de juros brasileira, permaneça em patamar alto por mais tempo, além de gerar efeitos sobre o câmbio. (leia mais abaixo)

Foi também a quarta reunião sob o comando de Kevin Warsh, indicado por Trump para presidir o banco central dos EUA. Warsh tomou posse em 22 de maio e iniciou oficialmente seu mandato de quatro anos em uma cerimônia na Casa Branca.

Agora no g1

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Warsh prega cautela

Em entrevista coletiva após a decisão, o presidente do Fed, Kevin Warsh, reforçou o compromisso do banco central de levar a inflação de volta à meta de 2% e disse que ainda é preciso avaliar os próximos dados antes de definir novos passos.

Questionado sobre por que o Fed não elevou os juros agora, diante da possibilidade de uma nova alta em dezembro, Warsh afirmou que o combate à inflação não depende de uma data específica nem de um único indicador.

“Controlar a inflação não é uma questão de escolher uma data específica no calendário. Da mesma forma, não se trata de um dado isolado”, afirmou.

Warsh disse que vê sinais positivos nas expectativas de inflação, mas reconheceu que o trabalho ainda não está concluído.

“Ainda não alcançamos a estabilidade dos preços, mas estamos trabalhando para isso”, disse.

Segundo ele, os dados divulgados nas próximas semanas ajudarão o Fed a definir o rumo da política monetária. “Há muita coisa acontecendo no mundo, e meus colegas e eu estamos atentos a isso.”

Cenário econômico pesa sobre Trump

Donald Trump tem pressionado por juros mais baixos, mas a inflação continua limitando o espaço para cortes. O índice de preços ao consumidor (CPI) acelerou para 3,7% em 12 meses até setembro, acima da meta de 2% perseguida pelo Fed.

Os republicanos tentam manter o controle das duas Casas, e perder a maioria em qualquer uma delas pode dificultar a agenda de Trump nos dois últimos anos de mandato.

Levantamentos recentes ajudam a dimensionar o desgaste de Trump relacionado ao tema. Segundo pesquisa Reuters/Ipsos divulgada na segunda-feira (26), 32% aprovam seu governo, enquanto 73% dizem que o custo de vida está caminhando na direção errada.

O que disse o Fomc

Ao justificar a decisão, o comitê do Fed destacou que a produtividade da economia americana segue crescendo em ritmo forte.

“Os ganhos de empregos têm acompanhado o ritmo de crescimento da força de trabalho, e a taxa de desemprego pouco mudou”, afirmou o colegiado.

Em setembro, os EUA criaram 29 mil vagas, bem abaixo das 133 mil registradas em agosto, enquanto a taxa de desemprego subiu de 4,1% para 4,2%, segundo o Departamento do Trabalho.

O Fomc destacou que a inflação continua elevada e afirmou que os próximos dados da economia ajudarão a definir os rumos da política de juros, com o objetivo de levar a inflação à meta de 2%.

A decisão desta quarta-feira não foi unânime. A diretora do Fed Lisa Cook e a presidente do Federal Reserve de Cleveland, Beth Hammack, votaram contra a manutenção dos juros e defenderam uma elevação de 0,25 ponto percentual.

Efeito dos juros no Brasil — e nos mercados

Juros em níveis ainda elevados nos EUA mantêm os títulos públicos americanos, conhecidos como Treasuries, mais atrativos para investidores por oferecerem retornos maiores.

Por serem considerados os investimentos mais seguros do mundo, as Treasuries com rentabilidades elevadas despertam o interesse de investidores estrangeiros, que direcionam recursos aos EUA e fortalecem o dólar.

Em outra perspectiva: apesar de diversas variáveis interferirem nessa lógica, o movimento tende a reduzir o volume de investimentos estrangeiros no Brasil, desvalorizando o real em relação à moeda americana.

Além disso, o dólar em nível elevado aumenta a pressão sobre a inflação por aqui, com reflexos na manutenção de juros altos pelo Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central do Brasil.