Ri Happy pede recuperação extrajudicial para renegociar R$ 827 milhões em dívidas
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Loja da Ri Happy — Foto: Divulgação
Loja da Ri Happy — Foto: Divulgação
A Ri Happy e outras cinco empresas do grupo pediram recuperação extrajudicial à Justiça de São Paulo, no domingo (18), para renegociar R$ 827,4 milhões em dívidas.
Credores que representam R$ 308,8 milhões da dívida já aceitaram negociar os valores, o equivalente a 42,38% do total incluído no plano.
No pedido apresentado à Justiça e obtido pelo g1, o grupo atribui as dificuldades financeiras a uma combinação de fatores, entre eles os efeitos da pandemia, os juros elevados, a queda das vendas no varejo e a concorrência de plataformas estrangeiras de comércio eletrônico.
- 🔎 A recuperação extrajudicial é um mecanismo que permite à empresa negociar diretamente com os credores novas condições para quitar dívidas. O acordo pode prever, por exemplo, prazos maiores ou outras mudanças nas condições de pagamento. Diferentemente da recuperação judicial, a negociação ocorre inicialmente fora do processo judicial tradicional, embora a empresa possa pedir à Justiça a homologação do plano.
Agora no g1
O pedido foi apresentado pouco mais de um mês após a aquisição do grupo pela BluSun Capital, anunciada em agosto. Desde então, a empresa passou a ser liderada por Héctor Nuñez, fundador da gestora.
Procurada pelo g1, a Ri Happy afirmou que a recuperação extrajudicial faz parte de um plano de reestruturação financeira e operacional iniciado após a troca de gestão.
Segundo a empresa, as lojas físicas e os canais digitais seguem operando normalmente, enquanto as equipes se concentram nos preparativos para a Black Friday e o Natal.
No documento, o grupo afirma ter mais de 2.600 funcionários e cerca de 292 lojas em operação no Brasil, entre unidades próprias das marcas Ri Happy e PBKids e franquias.
Entenda a crise da Ri Happy
No pedido, a empresa afirma que a pandemia prejudicou sua situação financeira, já que o fechamento de lojas e shopping centers reduziu o faturamento da rede de brinquedos.
A companhia também cita os juros elevados, que aumentaram o custo das dívidas bancárias, e a perda de poder de compra dos consumidores.
Outro fator apontado foi o fracasso da recuperação esperada após uma renegociação de dívidas bancárias realizada em 2023.
Na ocasião, o grupo renegociou cerca de R$ 292 milhões com bancos, mas, segundo a empresa, a recuperação econômica esperada não se concretizou nos anos seguintes.
A companhia também atribui parte da pressão sobre os resultados à concorrência de plataformas internacionais de comércio eletrônico, que oferecem produtos a preços mais baixos.
No documento, o grupo também aponta a concorrência de plataformas estrangeiras, como Shopee e AliExpress.
Segundo a empresa, mesmo com a chamada “taxa das blusinhas”, que estabelecia imposto sobre compras internacionais de até US$ 50, os produtos importados ainda têm vantagem tributária em relação aos vendidos no Brasil.
Como exemplo, o pedido cita dados de 2024 do Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT), segundo os quais quase metade do preço de uma bicicleta e de uma bola de futebol corresponde a impostos. No caso dos patins, os tributos representam 52,78% do valor.
“A crise do Grupo Ri Happy se insere em um movimento mais amplo de deterioração das condições do varejo, que vem atingindo diversos participantes do setor”, diz o documento.
“A retração do consumo, o encarecimento do crédito e as dificuldades financeiras de varejistas, indústrias, importadoras e distribuidoras se propagam pela cadeia, pressionando as condições de fornecimento, os prazos de pagamento e a disponibilidade de capital de giro.”
Fundada em São Paulo em 1988, a Ri Happy se consolidou como uma das principais redes de lojas de brinquedos do país e ampliou sua presença no varejo ao longo das décadas.
Em 2012, a empresa foi adquirida pelo fundo de investimentos Carlyle Group, que também comprou a PBKids. Em agosto deste ano, o controle do grupo passou para a BluSun Capital.
O que diz a empresa
Em comunicado, o Grupo Ri Happy afirmou que a nova gestão está adotando medidas para melhorar a liquidez, controlar custos e reorganizar a estrutura de capital, ou seja, a forma como a empresa financia suas operações e administra suas dívidas.
A companhia informou que fez ajustes nas equipes corporativas e prepara uma mudança de sede.
A Ri Happy também afirmou que pretende melhorar o desempenho das lojas físicas e dos canais digitais e fortalecer o relacionamento com clientes, funcionários, fornecedores, franqueados, shopping centers e instituições financeiras.
Segundo a empresa, o objetivo é ajustar os compromissos financeiros às necessidades da operação e garantir a continuidade do negócio no longo prazo.
Para Bruno Medeiros Durão, advogado, empresário e fundador da DAP Advocacia (Durão, Almeida & Pontes), o sucesso da recuperação dependerá da capacidade de adequar as dívidas à geração de caixa da operação.
“A recuperação extrajudicial pode ser uma ferramenta importante para empresas que precisam reorganizar o endividamento sem interromper suas operações. Mas o pedido, por si só, não resolve o problema financeiro. O resultado depende da viabilidade do plano, da adesão dos credores envolvidos e da capacidade da companhia de gerar caixa suficiente para cumprir os compromissos renegociados e manter o negócio funcionando”, afirma.
Segundo o advogado, manter as lojas abertas não significa, necessariamente, que a empresa tenha recursos suficientes para pagar todas as suas obrigações.
Por isso, a reestruturação precisa levar em conta os juros, os prazos das dívidas, os custos operacionais e os recursos necessários para manter a atividade.
“A reestruturação só produz resultados consistentes quando o acordo financeiro vem acompanhado de medidas concretas de gestão. É preciso compatibilizar o pagamento das dívidas com a operação, preservar recursos para o funcionamento do negócio e estabelecer metas realistas”, diz Durão.
Ri Happy é a segunda grande empresa de brinquedos a recorrer à Justiça
A Ri Happy é a segunda grande empresa do setor de brinquedos a recorrer à Justiça para reorganizar dívidas.
Entre os fatores apontados pela Estrela para justificar as dificuldades estavam os juros elevados, a maior dificuldade de acesso a empréstimos e as mudanças nos hábitos de consumo, com uma disputa crescente pela atenção e pelos gastos dos consumidores com jogos e entretenimento digital.



